Conversas de dois minutosDesenvolver um projecto de apoio a famílias
-um sonho de Claudio Anaia
Esta experiência fez-me crescer, porque me faz pensar a vida de uma forma diferente.” – disse-nos numa Conversa de dois minutos que aqui registamos.

Por S.P.
Foste para o Brasil, mais uma vez numa acção missionária, porque foi esta ida pelo Natal ?
“Esta é a sexta vez que vou ao Brasil, faço-o por necessidade e penso que tenho a vocação de estar ao serviço dos outros, numa entrega mais radical, uma entrega verdadeira, na ajuda aos mais pobres.
Senti que podia passar o Natal de uma forma diferente, essa forma diferente como passei o Natal foi estar com as crianças de rua, muitas delas crianças abandonadas, crianças sem família.
O ano passado quando lá estive, pediram-me para passar o Natal com eles e foi isso que eu fiz, estive lá com eles e com alguns missionários”.
Mas esta participação integra-se em algum projecto ?
“Isto é um projecto da Igreja Católica no Brasil, que acolhe jovens voluntários e missionários que decidem muitas vezes dedicar as suas férias, ou algum tempo das suas vidas, para estarem ao serviço dos outros.
Uma pobreza miserável
Fui contactar, mais uma vez a realidade brasileira, uma pobreza miserável.
É de notar que todas aquelas pessoas nas suas formas de estar, nas usas formas de ser, no seu comportamento, têm sempre muito para nos ensinar.
Para mim, mais uma vez, a experiência do Brasil, fez-me crescer, não só como Cristão, mas também como homem, para ver a forma humilde e a forma como as pessoas trabalham.
Ali as pessoas mais pobres e os missionários conseguem fazer um trabalho excelente, junto de todas aquelas pessoas.
O Brasil tem sido para mim uma experiência marcante.
As pessoas que vivem muito mal, que não tem condições dignas, mantêm entre elas uma grande solidariedade e vontade de se ajudarem umas às outras.
Existe miséria, mas também existe solidariedade, e interligação entre as pessoas.
Mais uma vez no Brasil senti vergonha de mim mesmo.
Esta experiência fez-me crescer
Eu estava, na conversa com uma senhora, na hora do almoço, e eu dizia-lhe: Então como vai, como está?
Que vamos almoçar?
Ela olhou para mim e chorou e disse-me : “Não vou almoçar”. Porque não tinha comida.
Isto faz-me sempre reflectir. Nós aqui na Europa vivemos interessados em ter mais, ou em ter poder, em ter poder de compra, vivemos muitas vezes pelo poder e pelos bens materiais, enquanto no Brasil há pessoas que não almoçam porque não têm comer.
Isso agitou-me interiormente, agitou-me psicologicamente, como pessoa que sou, fico perturbado porque, na verdade, ali existe miséria, ali existe desgraça e felizmente a presença missionária que existe lá, da Igreja Católica, é uma presença positiva.
Esta experiência fez-me crescer, porque me faz pensar a vida de uma forma diferente.”
Mas não é preciso ir ao Brasil para vermos pessoas que não têm comer. Se fores ali á rua encontras pessoas a procurar comida nos contentores.
“É verdade. Há isso no Barreiro. Mas a minha ida ao Brasil é uma experiência mais radical, porque durante um período de tempo a viver apenas para aquilo e só para aquilo, dormir a pensar naquilo, comer a pensar naquilo. Estar ali e viver aquilo.
No Barreiro, estou com um projecto muito interessante que posso aqui levantar um pouco a ponta do véu. Embora ainda não esteja concretizado.
Um grupo de jovens, aqui no Barreiro, pretende desenvolver um projecto das famílias adoptivas.
O que é isto das famílias adoptivas ? Nós sabemos que no Barreiro, infelizmente, também existe pobreza, também existe fome, então vamos coordenar um Programa, um Programa voluntário, não tem a ver com nenhuma Câmara, não tem a ver com nenhuma freguesia, nem com nenhuma instituição.
Acompanhar famílias
O que pensamos é que dois ou três jovens podem durante um ano adoptar uma família, desenvolvendo parcerias, de preferência com a CARITAS Paroquial, para podermos agir.
Este projecto está em andamento e é um projecto que está em andamento e penso que poderá ter muito sucesso, envolvendo jovens, muitos deles Universitários e não só, disponíveis para poder ajudar e acompanhar uma família, para conversar, para ajudar a limpar a casa.
Nós sabemos que a solidão no Barreiro é muito grande para os mais idosos, então esse projecto irá ser desenvolvido aqui no Barreiro.
A questão do Brasil é uma entrega mais radical, eu fui uma primeira vez, uma segunda vez e custa-me despedir-me deles, porque esta é uma entrega mais radical e apenas para estar com eles.
Nesta minha ida ao Brasil, mais uma vez, senti que valeu a pena viver. A minha vida valeu a pena viver.
Valeu a pena viver
Encontrei dois jovens que há dois três anos ajudei a tirar das ruas, ambos eram traficantes de droga ( faziam transporte de drogas) um deles snifava cola, e, ao ver, que esses jovens que eu ajudei a tirar da rua, hoje, um deles está a estudar carpintaria, o outro é marceneiro e saber que tive influência na vida daqueles jovens, para que pudessem sair dos caminhos onde estavam, são coisas que me fazem sentir realizado como ser humano.
Estas empatias, estas solidariedades, estas relações que são mantidas durante muitos anos, e quando lá vou, é para estar com essas pessoas. As saudades são muitas, as cartas pelo correio são sempre muitas e, quando lá vou, é para os contactar, abraçar, conversar com elas, estar com elas fisicamente.
Esta época do Natal foi muito bonita. O Natal para os brasileiros é uma época muito festiva.
Pela primeira vez na vida, passei o Natal de calções e t-shirt, porque estava muito calor.
Mas foi bonito estar com eles, porque muitos não têm família e foi uma grande alegria estar com eles numa época tão festiva e tão especial para nós Cristão que é o Natal.”
Aqui fica esta conversa de dois minutos com Cláudio Anaia, um jovem militante de causas, de paixões e de sonhos.














