ZAL no Barreiro“Estruturas” no Palácio Alfredo da Silva
ZAL, pseudónimo de José António Lopes, artista plástico, natural de Monte da Caparica, concelho de Almada, com 67 anos de idade, continua a fazer da pintura a sua “arma” de luta e afirmação da LIBERDADE.

Por Jornal Rostos
Numa breve conversa com “Rostos” começou por salientar como despertou o seu interesse pela pintura: “Comecei a falar com pessoas, achei que valia a pena fazer umas tentativas e depois conheci o Kira, que deu um impulso grande para que eu começasse a pintar.”
Recorda que quando começou a pintar, esta sua actividade, para si “a primeira coisa que significava era a liberdade, porque aí não havia restrições, era a liberdade absoluta.
Ali numa tela branca, podia fazer aquilo que quisesse, ninguém tinha nada com isso, nem a PIDE me ia lá prender por eu fazer uma coisa, porque eles não percebiam, mas, também era, para mim, uma forma de luta, foi assim que eu também a utilizei naquela época, entre 1970 e 1974”.
Pintar tem que ser a sério
Portanto, para si a pintura é uma arma? – perguntámos e ZAL, com um sorriso respondeu : “Pois claro, como a cantiga. Também foi uma arma, como os cantos. Eu acho que antes do 25 de Abril, todas as formas de cultura foram armas contra o regime fascista”
A pintura para si tem uma vertente de luta ideológica?
“Ideológica não terá. Mas, também tem, porque tem uma componente cultural muito grande, e, digo-lhe, isso para mim é claro, porque a minha cultura, assim como a cultura que fui adquirindo no pós 25 de Abril, na minha actividade com o Coordenador Nacional da Comissão de Trabalhadores da EDP (que exerci durante doze anos), foi uma Universidade para mim, aprendi nesse tempo mais que durante o resto da minha vida. Não esqueço isso.
A pintura, nessa altura ficou para segundo plano, ficou mesmo para trás. Fazia só umas coisitas.
Sabe, pintar tem que ser a sério, é preciso estar lá todos os dias e insistir e, quando não se está, não se deve deixar passar muito tempo senão a mão vai-se perdendo, a desenvoltura de raciocínio também, e, depois temos problemas grandes de avançar, se pararmos de pintar.”
Sentir a estrutura urbana
ZAL, actualmente está reformado da sua actividade profissional e dedica todo o seu tempo à pintura, no Restaurante Palácio Alfredo da Silva, está patente a sua última exposição subordinada ao tema – “Estruturas”.
“São realmente estruturas. Podia chamar-lhe outra coisa qualquer, mas não gosto de partir para uma exposição sem ter sobre ela uma leitura genérica. A exposição tem que ter um tema básico, é esse tema que me permite evoluir.
Esta exposição começou com um quadro que significa, para mim, uma estrutura urbana, foi o ponto de partida.”
O seu olhar neste quadros quase que parecem uma visão de satélite sobre a paisagem?
“Não era essa a minha intenção. Agora, quando falam nisso, sinto que é verdade.
Sim, dá essa sensação, mas, a minha intenção foi, realmente, jogar com aquelas formas urbanas ( por isso é que eu chamo urbanismos), com a estrutura urbana, como tem sido identificada, está ali : o Barreiro, o Seixal, Almada, a zona da bacia do rio Tejo.
Agora, olhando, sinto também isso. Estas coisas têm graça, no pintar abstracto, nós expressamos sentimentos quase inconscientemente.
São sentimentos que deviam estar cá na minha cabeça e, depois, qualquer coisa que me levou a pintar aquela composição, assim, tal qual ela está”
O equilíbrio da cor
Refere que nesta exposição existem duas componentes, uma componente qual alguma intimidade, e, na outra que perspectiva existe?
“Há um certo intimismo presente na pintura do abstracto.
A outra vertente, surgiu porque já não fui capaz de continuar.
Digo-lhe, é extremamente difícil pintar no abstracto, não pelo trabalho.
Se calhar é mais difícil eu desenhar um carro eléctrico, para mim é mais difícil.
Mas, é difícil, na verdade, a partir de um quadro pequenino que eu ali tenho, depois, fazer um outro, e mais um outro, onde tudo tem ligação.
A certa altura, temos que ter muito cuidado para não estarmos a repetir o que já fizemos, sendo necessário dar uma ligação e, particularmente, ter em atenção a cor.
A cor é aquilo que melhor domino, nos meus quadros as cores têm relações entre si e não são chocantes.
Procuro equilíbrio nas cores e sinto que as pessoas, nos meus trabalhos, ficam impressionadas com a cor, que eu gosto também.
Eu não saio com nada para a rua se não gostar. Se não gostar não mostro a ninguém”.
Neo-realismo como protesto
Salienta Zal que - “Na outra componente da exposição há o neo-realismo. Foi por aí que eu comecei, era a forma de protesto que existia na altura, e, nós, procurávamos todos, andar à volta dessa forma de expressão.
Estão aqui fragmentos desse período do neo-realismo.”
Concelhos mais revolucionários
ZAL, refere que já conhece o Barreiro dos tempos de antes do 25 de Abril e, com os olhos brilhantes e emoção nas suas palavras e diz-nos : “O Barreiro para mim significa uma coisa muito importante. Tive muitos amigos, antes do 25 de Abril, o Alfredo Matos, o Hélder Madeira, que foi Governador Civil, e outras pessoas, com quem me relacionei.
Acho que o Barreiro e Almada, são os concelhos mais revolucionários que existem neste país e continuam a ser.
Almada tenho a honra disso, o Barreiro por afinidade, para mim, completam-se.”
Lutar pela Liberdade
A finalizar pedimos a ZAL que deixasse uma mensagem para os barreirenses : “Digo aos barreirenses: que vale a pena lutar pela Liberdade e mantê-la seja como for, para sempre”.
Fica o convite visite, no Restaurante Palácio Alfredo da Silva, até ao final de Setembro, a exposição de pintura – “Estruturas” – de ZAL.














