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Pedro Abrunhosa no Barreiro com “Rostos”“O 24 de Abril no Barreiro é conhecido, eu já sabia que era assim, não sabia é que era tão bom”

Pedro Abrunhosa veio ao Barreiro, na véspera da comemoração do 33º aniversário da Revolução dos Cravos, para um concerto festivo e, do público, diz ter sentido: “uma reacção fantástica”, que se manifestou através de “uma presença que se manteve firme e estóica até ao fim”.

Em noite de festa, fez uso da alegria mas também da “agitação e da provocação” num concerto onde estreou algumas músicas do seu novo álbum “LUZ”, que sairá em Maio. Canções como “Ilumina-me”, “Balada de Gisberta” e “Quem me leva os meus fantasmas” foram exemplo disso. Diz ter sido um concerto experimental, mas “muito participado pelas pessoas”, o que muito lhe agradou. E apesar de já conhecer a fama do 24 de Abril no Barreiro, confessa: “não sabia é que era tão bom”.

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Pedro Abrunhosa no Barreiro com “Rostos” “O 24 de Abril no Barreiro é conhecido, eu já sabia que era assim, não sabia é que era tão bom”

Por Jornal Rostos

Cantor interventivo, que não hesita em fazer das palavras e da música uma forma de expressão contestatária. Cantor que interroga, que sublinha as desigualdades, que relembra feridas que não cicatrizaram, que se impressiona e extravasa as emoções em poemas que logo canta. Pedro Abrunhosa, nascido na cidade invicta, uma figura enigmática, de óculos espelhados que lhe escondem o olhar mas não o sentimento, nem as palavras.

“O rock não pode ser uma música asténica”

Para falar do 25 de Abril, fez uso das primeiras estrofes de uma canção sua lançada em 1999, que integra o álbum “Silêncio”, sob o título, “Novos Pobres”: “Diz-me em quanto tempo se faz a revolução/ Quantas cabeças de fora, Quantos corpos no porão”. Considerando que os tempos em que vive o país não são os melhores, sustenta, ao jogar com as palavras que compõem a música, que”continua a haver muitas cabeças de fora e muitos corpos no porão”. A situação que o país atravessa não lhe é, de modo nenhum, indiferente, considera que a injustiça social impera e que muito será necessário fazer para repor a justiça. Ainda a respeito desta questão, faz menção à crescente privatização do que considera serem direitos essenciais, dando o exemplo da educação e da saúde e em jeito de ironia diz: “só falta privatizar a justiça”. Por isso, a música que cria e os concertos que dá têm em si marcas de contestação, “de agitação de consciências” que na sua opinião são elementos essenciais na música: “O rock não pode ser uma música asténica”. Considera que a palavra deve ser de intervenção e não apenas de entretenimento e o objectivo: “É provocar”.

Papel do cantor: “Transportar alguma magia”

Quando questionado com o papel que o cantor desempenha na sociedade, diz: “É o papel do médico, o papel do jardineiro e do canalizador” e isto porque considera que o papel do cantor não é mais relevante do que o dos outros. Na sua opinião, o mais importante é que o cantor, tal como em qualquer outra profissão, cumpra bem a sua função, o que, neste caso, considera ser: “o seu papel é participar como pode na dignificação das pessoas”, o que passa por “transportar alguma magia”. Faz ainda questão em referir que não acredita no vedetismo e que a vida que persegue é serena e “retirada disto”, referindo-se assim ao contacto com a imprensa. Por outro lado, diz que aquilo em que acredita é na música. E na sua opinião “a música tem de ter esse cariz quase entre o militar e o educativo.”

A música “pode ser um belo livro”

Relembrado a véspera do 25 de Abril de 1974, em que as palavras e a música tomaram uma importância grandiosa. Na noite em que as canções “E depois do Adeus” de Paulo de Carvalho e “Grândola Vila Morena” de Zeca Afonso, foram os sinais esperados pelos militares para fazer avançar a Revolução, e que se transformaram em hinos de liberdade, Pedro Abrunhosa refere que a música está sempre presente nessas ocasiões. Aludindo para a Revolução Francesa do século XVIII, onde refere: “a Bastilha acaba por ser e continua a ser um grande hino que fala de igualdade, de liberdade e de fraternidade.”. Mas também considera que a música “não tem de ser um panfleto” e que pode ser mais do que isso: “pode ser um belo livro”, afirma. E é por essa razão que diz também falar de amor nas suas canções, mas de “um amor diferente da canção pimba”, como faz questão em sublinhar. O romantismo que caracteriza as suas canções verte assim um amor de perda, de desejo, “é o amor do medo”, um amor abrangente “entre as pessoas e entre a humanidade”, sustenta.

Fantasmas que pairam sobre a Liberdade

Pegando no título do seu novo single: “Quem me leva os meus fantasmas”, e procurando responder à pergunta, se existem fantasmas a pairar nos dias de hoje sobre a liberdade, o cantor considera que sim, que existem fantasmas e munido dessa opinião falou de um caso concreto, das manifestações que têm ocorrido pelos grupos de extrema-direita. “Que tem memória curta”. Considerando que “só a ignorância é que pode gerar isso”. É também por esse facto que diz que o nome escolhido para o novo álbum recaiu na palavra: “LUZ”, porque diz que “é preciso que haja luz sobre as sombras”. E em jeito de aviso, de quem não está indiferente perante o que se passa à sua volta, que Pedro Abrunhosa alerta para o perigo que o aumento do nível de abstenção eleitoral representa: “É preciso ter muito cuidado porque de repente aparece um Le Pen a dizer que os problemas do país são os imigrantes” e podem ser criadas as condições para que “a extrema-direita demagógica tome conta do poder”. E por isso fala na necessidade de haver resistência, para não deixar escapar os valores da liberdade e da democracia conquistados no 25 de Abril.

Andreia Lopes Gonçalves

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