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Eduarda Dionísio no Barreiro“É uma vitória. Não sei bem de quem, mas é uma vitória. Isto existe fora de Lisboa”

“Claro que gostei. Gostei de ser espectáculo, de ter havido trabalho, e perceber as coisas. Isso percebe-se que existe. Isto não é fácil.
Acho que é espantoso para quem vive em Lisboa, e, naqueles meios, vir a uma cidade mais pequena, e dar-se um momento, grande, em que há um conjunto de pessoas, agarrados a uma coisa”- sublinhou Eduarda Dionísio, autora da obra “Antes que a noite venha”, levada à cena pela Companhia de Teatro ArteViva, com encenação de Rui Quintas.

6 min de leitura
Eduarda Dionísio no Barreiro “É uma vitória. Não sei bem de quem, mas é uma vitória. Isto existe fora de Lisboa”

Por Jornal Rostos

Eduarda Dionísio, autora da obra – “Antes que a noite venha”, levada à cena pela Companhia de Teatro Arte Viva, com encenação de Rui Quintas, assistiu ao espectáculo e, no final, trocou algumas opiniões com a comunicação social.

Eu fiz o texto para aquele espectáculo. O texto devia ter ficado ali

Eduarda Dionísio recordou que o texto “Antes que a noite venha” foi um pedido que lhe foi formulado por um encenador que já “tinha a ideia, tinha as actrizes, queria que eu fizesse um texto. Ele tinha os actores. Tinha o espaço.”
Sublinhou que a proposta estava à volta de uma ideia que - “eram quatro mulheres da noite, que, enquanto se arranjavam para noite, daí “antes que a noite venha”, (que não é nenhuma metáfora da morte, é a noite física) cada uma dessas mulheres tinha a mania de se identificar com uma heroína, da literatura, da história.”
Eduarda Dionísio salienta que – “Esta era ideia que havia previamente ao texto. Eu fiz o texto para aquele espectáculo. O texto devia ter ficado ali.”

A partir do momento que o texto é editado, o texto deixa de ser meu

Entretanto, recorda, - “Tive uma proposta para editar o texto. Eu disse não, porque o texto não era para ser editado. Era um texto para aquele espectáculo.
Lá me convenceram. A partir do momento que o texto é editado, o texto deixa de ser meu, ou seja, é um material que está ali e cada um usa, não traindo as palavras que lá estão (não é o caso aqui), e faz aquilo que entender com o texto que já não é meu, que as pessoas podem mexer.”
Nesse sentido a autora do texto levado à cena pelo Arte Viva, sublinha que – “Não posso comparar porque o texto foi feito para uma ideia, aqui é feito outro caminho. Foi pegar num texto, em si, e fazer um outro objecto com ele. Não há comparação a fazer.”

Há parte do texto que já nem me lembrava dele, fui redescobri-lo

Na sua opinião na peça do Arte Viva – “Há coisas interessantes, mas sobretudo, cada um, tem o direito de fazer o objecto que entender a partir daquele texto que está ali.”
Sublinha Eduarda Dionísio que – “Há coisas que acho engraçadas, muito interessantes, mas vendo de fora, não vendo como um texto meu. Vendo o espectáculo.”
Refere a autora que – “Há parte do texto que já nem me lembrava dele, fui redescobri-lo.”

Um contentamento de haver pessoas a quem lhe apetece pegar naquele texto

Eduarda Dionísio salienta que em relação a este espectáculo – “Não há uma expectativa. Há sobretudo um contentamento, de haver pessoas a quem lhe apetece pegar naquele texto, e, o contentamento de pessoas a fazer um esforço grande para fazerem um objecto, que nada tem a ver com aquilo que a primeira pessoa que me propôs tinha na cabeça. Fazer um objecto que outras pessoas usufruem, que dá que pensar, que uns acham esquisito, que outros riem, outros choram, é sobretudo isso que, como autora destas palavras, deste texto eu posso dizer.”
Sublinha que – “Não tinha expectativa nenhuma. Já vi um espectáculo nos Açores que não tinha nada a ver com isto, já vi um vídeo feito no Porto, que não tinha nada a ver com isto, e, ainda bem que são todos diferentes.”

Há personagens que vivem mais a história do que o texto

“Eles não mataram o texto, de maneira nenhuma. Há, por vezes, para mim, problemas de dicção.
Há uma dificuldade, que este texto tem, porque a pessoa está a viver uma história e a dizer simultaneamente o texto – é complicado.
Há personagens que vivem mais a história do que o texto, por exemplo.
Mas, isso provavelmente, também vem do texto ter sido fabricado desta maneira.
Há aqui algumas personagens que vivem mais a história do que o texto.
Vivem a história. O texto também tem uma história, que já existia antes. Eu também não inventei história nenhuma.” – sublinha Eduarda Dionisios

Uma espécie de um discurso comum com histórias diferentes

Colocada a pergunta – “As personagens são uma?”
Eduarda Dionísio salientou que – “Inicialmente o texto era para uma só personagem que, depois, transformou-se em quatro personagens.
De facto é uma espécie de um discurso comum, com histórias diferentes.”
Referiu que no texto “há questões politicas” as relações de “clãs e os poderes”. Sublinhando que – “as desgraças delas, são fruto de relações politicas.”

Não vejo nascer uma proposta como a Cornucópia, ou a Comuna

Eduarda Dionísio salientou que não acompanha a actividade teatral actualmente em Portugal, e, embora considere que – “Há mais oferta e mais pessoas a fazerem coisas”, na sua opinião – “De há uns anos para cá não vejo nascer uma proposta como a Cornucópia, ou a Comuna. Tenho dificuldade em ver isso, mas eu não vejo muito teatro”

Não sei bem de quem mas é uma vitória

Nesta sua presença no Barreiro salientou – “Acho importantíssimo haver salas cheias. Ver com estas pessoas aguentam. Verem um espectáculo destes e um texto destes durante tanto tempo, e, verificar como foram tão poucas pessoas a desligarem. Acho isso importantíssimo.”
Esta realidade que viveu no Barreiro, sublinhou – “È uma vitória. Não sei bem de quem, mas é uma vitória. Isto existe fora de Lisboa”.
Na sua opinião fazer esta peça com o seu texto – “
Vale fazer para quem o faz. De certeza que aprenderam a fazer”, acrescentando – “Se eu fosse encenadora que nunca fui na vida, se calhar não pegava neste texto. Mas, agradeço que tenham ido buscar o meu texto”.

Gostei de ser espectáculo, de ter havido trabalho

“Claro que gostei. Gostei de ser espectáculo, de ter havido trabalho, e perceber as coisas. Isso percebe-se que existe. Isto não é fácil.
Acho que é espantoso para quem vive em Lisboa, e, naqueles meios, vir a uma cidade mais pequena, e dar-se um momento, grande, em que há um conjunto de pessoas, agarrados a uma coisa”- sublinhou Eduarda Dionísio.

S.P.

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