Carla Graça, Presidente do Núcleo de Setúbal da QuercusPreservação do património natural é mais-valia para o desenvolvimento da Península de Setúbal
Carla Graça, Presidente da Direcção do Núcleo Regional de Setúbal da Quercus, refere ao Rostos que, o ano de 2010 assistiu – “na Península de Setúbal a um agravar das situações de conflito entre os grandes investimentos e a protecção do património natural”.
A ambientalista sublinha que o assunto de maior relevo no ano 2010 foi – “a luz verde dada pelo Ministério do Ambiente para a instalação do Novo Aeroporto de Lisboa no Campo de Tiro de Alcochete”, uma decisão que a Quercus – “considera que não estão reunidas as condições necessárias para o avanço da obra”.

Por Jornal Rostos
Que balanço faz do ano 2010?
O ano de 2010 assistiu na Península de Setúbal a um agravar das situações de conflito entre os grandes investimentos e a protecção do património natural. Em particular, a instalação do Novo Aeroporto de Lisboa e a construção de todo um conjunto de rodovias estão a incentivar a ocupação de terrenos sensíveis do ponto de vista natural e mesmo económico (como é o montado), sem que tenham sido feitos os esforços necessários para compatibilizar e harmonizar estas duas facetas que não são necessariamente contraditórias e opostas. Uma vez mais, vemos vários projectos a serem desenvolvidos em zonas de Rede Natura ou em zonas de montado, sem que tenham sido acauteladas alternativas de localização ou mesmo de projecto. A instalação da Decathlon em Setúbal é mais um exemplo dessa tendência da parte dos nossos decisores. No entanto desta vez, o Tribunal veio dar razão à Quercus, pugnando pelo princípio da precaução e acautelando a preservação dos valores em presença.
Pela positiva, destacamos a iniciativa da CM do Barreiro para classificação da Mata da Machada e do Sapal do Coina como Área Protegida Local, o que a acontecer será a primeira área protegida na região. Destacamos também a candidatura da Arrábida a Património da Humanidade, num esforço concertado entre o INCB e a AMRS e as autarquias de Setúbal, Sesimbra e Palmela, naquilo que é mais uma iniciativa para reconhecer o elevado valor do património natural que temos aqui tão perto de nós, e que nem sempre sabemos reconhecer. E por fim, aquilo que esperamos serem boas para a população de golfinhos do Sado, o nascimento de duas crias este ano trazem bons auspícios para a recuperação desta comunidade tão emblemática da nossa região.
Que perspectivas coloca para o ano 2011?
Quanto às perspectivas para 2011, infelizmente temo que continuemos a assistir à delapidação do património natural da região em benefício de um tipo de desenvolvimento deveras questionável e cuja sustentabilidade a médio ou a longo prazo não está sequer garantida. Os meus votos para 2011 é que os nossos decisores consigam finalmente passar do discurso teórico à prática e que aproveitem as iniciativas tomadas este ano para inverter as suas políticas de preservação do património natural da região, pois este é com certeza uma mais-valia para o desenvolvimento harmonioso da Península de Setúbal.
Que assunto de maior relevo destaca no distrito no ano 2010?
O assunto de maior relevo terá de ser necessariamente a luz verde dada pelo Ministério do Ambiente para a instalação do Novo Aeroporto de Lisboa no Campo de Tiro de Alcochete. è uma decisão que a Quercus questiona, pois considera que não estão reunidas as condições necessárias para o avanço da obra. Aliás, como o próprio Ministério do Ambiente reconhece, na Declaração de Impacte Ambiental, serão necessários ainda imensos estudos previamente ao projecto de execução, em áreas tão vastas como os recursos hídricos e o ruído ou o ordenamento do território e a expansão urbanística. Alguns dos estudos em falta são mesmo críticos para a própria viabilidade da infra-estrutura, como é o caso do estudo das colisões de aves com as aeronaves, facto tanto mais relevante quanto o local de implantação do NAL se encontra nas imediações de duas áreas protegidas (Reserva Natural do Estuário do Tejo e Reserva Natural do Estuário do Sado) com milhares de aves migratórias. Assim, é manifestamente surpreendente esta decisão de avançar antecipadamente com a obra. Uma obra desta envergadura terá imensos impactes na região, e uma grande parte deles não serão com certeza positivos, ao contrário do que se tem tentado disseminar junto da opinião pública.














