João Soares, Presidente da Associação de Comércio Serviços Barreiro e Moita«Alfredo da Silva tem acabado por ser o "patinho feio" do centro da cidade»
João Soares, Presidente da Associação de Comércio Serviços Barreiro e Moita, comenta que o ano 2010 foi marcado pelas estratégias que retiram – «às Micro e Pequenas Empresas as hipóteses de poderem sequer sobreviver, criando todas as condições para que as grandes superfícies e os mega centros comerciais proliferem como “cogumelos”».
“O inicio da implementação dos programas REPARA, Quinta da Mina e obviamente a conclusão da obra da ETAR Barreiro / Moita são os pontos mais favoráveis ao concelho no ano que agora terminou” – refere João Pedro Soares.

Por Jornal Rostos
Que balanço fazem do ano 2010?
Como tenho vindo a referir sistematicamente o sector do comércio das Micro e Pequenas Empresas e os seus ramos de actividade, mais concretamente aquelas que estão genericamente situadas nas ruas das cidades, vilas e aldeias deste país têm vindo, desde há mais de uma década, a serem completamente absorvidas pelos grandes consórcios nacionais e transnacionais. Ao longo dos anos os poderes públicos, centrais e autárquicos, não têm feito mais do que criar estratégias que têm tido como objectivo claro retirar às Micro e Pequenas Empresas as hipóteses de poderem sequer sobreviver, criando todas as condições para que as grandes superfícies e os mega centros comerciais proliferem como “cogumelos”, retirando-lhes a esmagadora maioria dos consumidores. Nunca “Os Vampiros” imortalizados pelo saudoso Zeca Afonso estiveram tão actuais!
Mais, como mero exemplo, gostaria de questionar os leitores… será que ainda conseguem encontrar, entre outras, lojas de brinquedos, desporto ou de discos nas ruas ?
Ao contrário do que nos querem fazer crer, os grandes consórcios comerciais não criam mais empregos. Destroem muito mais do que criam e a prova está em que temos mais de duas décadas de larguíssima proliferação de grandes superfícies em Portugal e a taxa de desemprego continua a aumentar vertiginosamente, independentemente das crises ditas conjunturais. Para além disso, muito do desemprego deste sector não é contabilizado, como são exemplo, os micro e pequenos empresários que ficam sem o seu sustento e que apesar de terem uma carreira contributiva não têm qualquer tipo de protecção social.
Paralelamente, todos sabemos que Portugal tem claro défice na balança comercial com o exterior, isto é, importamos mais produtos do que exportamos. Estas politicas trouxeram-nos a essa realidade nua e crua ! As grandes superfícies vendem muito mais produtos importados do que o comércio de rua das Micro e Pequenas Empresas nacionais e têm contribuído largamente para o agravamento dos desequilíbrios comerciais com o exterior.
Implementem politicas que desenvolvam e envolvam os tecidos produtivos e comerciais do país! Não sejam hipócritas e deixem de afirmar que tudo se irá resolver em torno das exportações, porque é uma autêntica falácia ! As exportações são importantes, mas não completamente decisivas, uma vez que estaremos a falar de apenas 2500 empresas, num universo de mais de 300.000.
2010, foi caracterizado pelo desenvolvimento em regime extremamente acelerado deste conjunto de politicas que têm condenado Portugal ao estado a que chegou. Relembro aqui, a aprovação recente da Lei que autoriza as autarquias a regulamentarem acerca da abertura das grandes superfícies aos domingos e feriados, que é quase caso virgem na Europa, uma vez que só a Suécia e a Bélgica têm soluções semelhantes. É caso para perguntar, será que todos os outros estão errados ? Ou será que não terão modelos de equilíbrio empresarial / comercial completamente distintos e muito mais produtivos para as suas economias ? Quem estaremos nós a favorecer ?
Que perspectivas coloca para o ano 2011?
Como agente económico, como dirigente associativo, gostaria que o nosso país pudesse vir a ser capaz de encetar soluções politico - económicas completamente distintas das que nos têm sido apresentadas ao longo das últimas décadas e que pelos resultados estão completamente erradas! A aposta terá que ser nas forças produtivas, empresariais e comerciais exclusivamente nacionais, centrando a sua estratégia e acção nas Micro, Pequenas e Médias Empresas dos mais variados sectores. Para isso, será fundamental que os Portugueses entendam o que está em causa e sejam muito mais participativos na vida politica, económica e social do país. Em democracia o poder reside no povo, mas sem o seu interesse na coisa pública o regime, que é de todos e para todos, esmorece, ficando claramente ao dispor dos abutres que por opções meramente egocêntricas individuais ou de grupo têm vindo a liquidar as possibilidades de reconversão de um país que teria tudo para dar certo.
Por tudo isto, tenho esperança que possa haver em 2011 um estado geral de alerta do povo Português face a quem nos tem dirigido nas últimas décadas. É tempo, sem preconceitos, de mudar de rumo, de dar oportunidades a quem nunca as teve para implementar as suas ideias no terreno. Só assim Portugal poderá tornear, em democracia, o cabo que já está para lá das próprias tormentas.
Que assunto de maior relevo destaca no concelho no ano 2010?
Creio que o inicio da implementação dos programas REPARA, Quinta da Mina e obviamente a conclusão da obra da ETAR Barreiro/Moita são os pontos mais favoráveis ao concelho no ano que agora terminou. No entanto, não podendo comungar das estratégias que levaram à inauguração de duas grandes unidades comerciais no concelho, gostaríamos que 2010 já tivesse sido o ano da total reabilitação do centro da cidade, nomeadamente numa aposta clara na Rua Miguel Bombarda, que ainda alberga algumas micro e pequenas empresas do sector e que em virtude do bom investimento produzido na Alfredo da Silva tem acabado por ser o "patinho feio" do centro da cidade. Não podemos deixar partir dinâmicas e sinergias que haviam sido criadas e que têm sido fundamentais para o renascimento de um Barreiro Novo, não só ao nível do centro urbano, mas indo mais longe, criando soluções e apostas que possibilitem uma maior aposta nas micro e pequenas empresas do sector. Entre outros, uma criteriosa gestão profissional de cidade e marcos informativos em determinados pontos da cidade acerca do tecido comercial existente seriam passos seguros no sentido de uma maior solvabilidade económica do concelho.














