Saltar para o conteúdo
Quotidianos

NÃO OFENDE QUEM QUER, NEM QUEM NÃO QUERpor Hélio Bernardo Lopes
Barreiro

O que estas palavras de Mário Soares vieram mostrar, foi que quase quatro décadas de prática eleitoral democrática pouco terão mudado ao nível das mentalidades. Até daquelas de onde muitos suporiam não ser possível.

3 min de leitura
NÃO OFENDE QUEM QUER, NEM QUEM NÃO QUER por Hélio Bernardo Lopes Barreiro

Por Jornal Rostos

Sabe-se, da vida corrente, que não ofende quem quer. A verdade, porém, é que também quem não quer não ofende. Vem isto a propósito das primeiras declarações de Mário Soares, feitas por telefone, sobre Eusébio. Declarações fora da mais infinitésima lógica, mas que mostraram a existência de um preconceito que nos tem mantido, e desde há muito, na cauda do ambiente civilizado: o de que só a qualidade cultural, científica ou técnica são merecedoras de consideração superior.
No Reino Unido, Isabel II não pensou deste modo, ao atribuir a Charlton o título de Sir, tal como também se deu com Robson e Alex Ferguson. Nem a rainha se preocupou com o facto de John Major não ter estudos. Pelo contrário, até foi o escolhido para acompanhar a produção escolar dos seus netos e futuros herdeiros. Certamente por não ter estudos e ter sido primeiro-ministro. Claro que os britânicos, que nem se deixaram levar pela falsa cansoneta do euro, alumiam hoje e desde há muito duas vezes. Prevê-se até – vale o que vale – que em 2030 terão ultrapassado a Alemanha.
O que estas palavras de Mário Soares vieram mostrar, foi que quase quatro décadas de prática eleitoral democrática pouco terão mudado ao nível das mentalidades. Até daquelas de onde muitos suporiam não ser possível.
Disse muito bem o Presidente Cavaco Silva, quando questionado sobre o papel de Eusébio, que o resultado estava à vista. E a verdade, ao que pude ler e ver nesta passada noite, é que a notícia da sua morte esteve presente na primeira página de cerca de setenta e sete jornais de países de todas as latitudes e longitudes. O que mostra que Eusébio se tornou numa referência portuguesa mundialmente conhecida. E gostava de saber quantas dessas notícias ou artigos referiram o que, em momento de rara infelicidade, disse Mário Soares.
Felizmente que o PS de Seguro deitou estas infelizes considerações de Mário Soares para o cesto das velharias, indo propor, na sequência da tomada de posição do deputado João Semedo, que o corpo de Eusébio venha a repousar no Panteão Nacional. É a lógica das coisas, sobretudo, num país que tenha o bom senso de galardoar os seus melhores.
Infelizmente, ao tecer as considerações que se lhe ouviram, Mário Soares enfraqueceu a sua imagem no plano político, porque daqui em diante logo surgirão os que lhe irão apontar a falta de lógica das suas palavras e o divórcio cultural e histórico do sentimento, muito geral, dos portugueses. Foi um momento de mui rara inoportunidade.

Hélio Bernardo Lopes

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção