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Quotidianos

EUSÉBIO E O PANTEÃO NACIONALPor Hélio Bernardo Lopes
Barreiro

Nos termos da democracia representativa que conseguimos construir e manter, a verdade é que a generalidade dos nossos representantes defende esta ideia. E também é uma realidade que, estando Amália Rodrigues no Panteão Nacional, é difícil recusar uma situação semelhante com o nosso Eusébio. Além do mais, a grande maioria dos portugueses não recusa uma tal decisão.

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EUSÉBIO E O PANTEÃO NACIONAL Por Hélio Bernardo Lopes Barreiro

Por Jornal Rostos

O recente falecimento do nosso concidadão, Eusébio da Silva Ferreira, fez surgir um debate forte ao redor da trasladação dos seus restos mortais para o Panteão Nacional, tal como já havia tido lugar com Amália Rodrigues. Sempre apoiei esta ideia, mesmo antes de a ter ouvido a João Semedo e Rui Rangel.
Nos termos da democracia representativa que conseguimos construir e manter, a verdade é que a generalidade dos nossos representantes defende esta ideia. E também é uma realidade que, estando Amália Rodrigues no Panteão Nacional, é difícil recusar uma situação semelhante com o nosso Eusébio. Além do mais, a grande maioria dos portugueses não recusa uma tal decisão.
Acontece, até com grande frequência, que se julga que todo e qualquer problema é suscetível de possuir solução e de assim se poder encontrá-la. Infelizmente, a realidade é o contrário: existem problemas, que são muito frequentes, que não têm solução. Ou, ao menos, o que se poderia designar como a sua solução. Muitos admitem diversas soluções, o que é frequente naqueles domínios fortemente marcados pela presença da subjetividade.
Neste caso da trasladação dos restos mortais de Eusébio para o Panteão Nacional, uma recusa teria de se suportar no facto de ser o Panteão Nacional apenas reservado a figuras com cunho histórico essencial para a formação da Nação ou para a garantia da sua independência, mas em momentos cruciais. Simplesmente, de há muito esta realidade foi completamente ultrapassada.
Poderia dispor-se, por exemplo, de um cemitério destinado a grandes personalidades da nossa vida social, onde as mesmas seriam sepultadas. A verdade, porém, é que essa estrutura não existe nem deverá vir a existir. Além do mais, poderia até dar-se o caso da família de certo nosso concidadão entender a solução do funeral por um outro caminho.
É essencial ter-se presente, quando se olha o que ora está a decorrer, que este acontecimento teve lugar numa altura em que não existia um infinitésimo de discussão ao redor do critério até aqui seguido sobre a utilização do Panteão Nacional. Assim continuaria a ser a realidade se não tivesse tido lugar o falecimento do nosso Eusébio.
Também não colhem os critérios suportados em comparações de qualidade, porque não é possível dizer se Manuel António Pina é melhor, ou não, que Sophia, ou que Torga, ou que Eugénio de Andrade. Nem existem critérios que permitam dizer que Saramago é melhor que Lobo Antunes, ou que Agustina, etc.. O que é verdade é que os portugueses se uniram ao redor de Eusébio, depois da sua morte, de um modo desde há muito deveras singular.
E se é verdade que a grande comunicação social potenciou a reação que se viu, também o é que a mesma teve imenso de espontânea. E também que nunca seria possível conseguir uma tal reação com o desaparecimento de um grande escritor, ou de um pintor de enorme referência, ou de um académico de grande projecção, mesmo internacional.
O caso de Eusébio, tal como o de Amália mas ainda em maior grau, possui um ingrediente essencial: encontra-se ligado ao imaginário coletivo, tocando quase todos os portugueses, mas possuindo uma implantação forte e historicamente ativa pelas sete partidas do Mundo. É claro que se trata de uma singularidade que deriva da natureza do seu trabalho, mas não pode este ser colocado de lado, só porque é futebol.
Maria Roma, tal como João de Deus Pinheiro, conseguiram escrever romances, até com grande interesse. Mas seriam capazes de jogar futebol a alto nível? O mais provável é que não conseguissem. Mas se Eusébio tivesse estudado, seria ele capaz de escrever um ou outro romance? Talvez. É natural que conseguisse. Não seria, quase com toda a certeza, um escritor de primeira grandeza, mas conseguiria escrever uma obra. Já a recíproca seria muito mais difícil, porque o que Eusébio fazia resultava de um dom. Por muito que se estude a dinâmica do chuto, há coisas que são arte e que resultam de uma perceção só acessível a privilegiados de Deus.
Por tudo isto, espero bem que os nossos representantes eleitos não venham a dar o dito por não dito, coisa que de há muito vem fazendo escola na nossa vida política. Além do mais, pudemos todos ver que a enormíssima maioria dos portugueses acompanhou Eusébio neste seu momento, e que o seu nome correu o Mundo. E foi Portugal e Moçambique que por ali também foram falados.
A prova disto mesmo esteve na recente deslocação do Presidente da República da Irlanda à nossa embaixada em Dublin, acompanhado de sua mulher, onde, no livro de condolências, também ali aberto, escreveu ser imortal o contributo de Eusébio ao futebol e ao mundo do desporto. Ao que o nosso embaixador respondeu que tal gesto honra Portugal, a figura de Eusébio e a sua família.
Esta foi, pois, uma atitude que teve lugar em legações diplomáticas portuguesas diversas. Haverá de convir-se, por tudo isto, que Eusébio, com o seu percurso de vida, materializa uma rara e generalizadamente reconhecida singularidade portuguesa e moçambicana.

Hélio Bernardo Lopes

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