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Quotidianos

O que será preciso, para que este país pare?Por João Carlos Soares
Barreiro

Enquanto a dívida económica puder continuar a circular pelos mercados financeiros, vamos continuar a assistir ao pacto do poder político com o financeiro e o mediático, visceralmente comprometidos.

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O que será preciso, para que este país pare? Por João Carlos Soares Barreiro

Por Jornal Rostos

Afectados pela crise económica que alastrou por toda a Europa, continuamos a fazer marchas contra a política de cortes do governo, quando deveríamos cerrar fileiras e mostrar a esta gente que, primeiro que os mercados, estão as pessoas e nós temos a consciência de que não é destruindo o tecido produtivo do país, aumentando o desemprego, cortando nos salários e pensões, aumentando os impostos e desinvestindo na inovação que, alguma vez voltaremos a ser o país soberano que orgulhosamente defendemos durante nove séculos de História.
Julgo que toda a gente já percebeu, que a única solução que o governo encontra, para ir buscar o dinheiro para pagar aos credores internacionais, são o constante assalto aos bolsos dos trabalhadores, reformados e pensionistas, numa escalada nunca antes sentida, mas continuamos a cruzar os braços, assistindo ao branqueamento de todo o tipo de fraudes, praticadas por governantes e ex-governantes, ou figuras de topo da alta finança, responsáveis pelo enorme rombo provocado por anos de neoliberalismo selvagem, com a desoneração fiscal das grandes empresas e o incentivo à omissão de mais-valias e rendimentos dos poderosos.

Até agora, sempre sobre a capa da crise, foram despendidas enormes cifras provenientes de empréstimos e endividamento do Estado para salvar os bancos, enquanto se deixa de investir no aparelho produtivo do país, alienando-se todas as empresas e sectores rentáveis do Estado, colocando nas mãos dos amigos e entidades internacionais essas empresas, que mais tarde ou mais cedo, colocarão nas suas administrações, os amigos e correligionários dos costume, governantes, ex-governantes e políticos desonestos e sem escrúpulos, permitindo a transferência das suas sedes para paraísos fiscais, numa autêntica fraude e fuga ao fisco.
Perante este cenário, não se adivinham tempos de bonança, pelo contrário, num país sem produtividade, onde o Estado vive à mercê dos impostos dos trabalhadores, quando e contrariando a versão do governo e instituições por ele controladas, o desemprego não baixa, pergunta-se onde vai o Estado buscar dinheiro, para manter e dar resposta às suas obrigações básicas para com os seus cidadãos?

Em tempos de dificuldades, o governo, deveria ser o primeiro a dar o exemplo, mas infelizmente somos a acreditar nas notícias que vão fazendo capa na imprensa diária, onde se denúncia a pouca vergonha dos milhares de nomeações de boys, para os gabinetes ministeriais, bem como os custos e mordomias de uma classe política, que teima em não se colocar ao lado do povo, não se poupando a despesas, nem sofrendo qualquer tipo de restrição nos seus honorários e benesses.
Penso que, o reconhecimento tardio da classe política, em geral, pela dramática situação em que estão a colocar os cidadãos, terá um fim que nenhum democrata que se preze ambiciona nem deseja, até porque a paciência e o sofrimento do povo, tem limites. Esses limites estão a ser ultrapassados já há algum tempo pelo governo, que se mantém apostado em satisfazer os interesses capitalistas, esquecendo-se da sua missão e compromissos assumidos com o povo, o que levará, mais tarde ou mais cedo, a posições de confronto, situação que poderá descambar em desobediência nacional, porque o povo não está disposto a mais sacrifícios, para salvar a pele dos banqueiros que conduziram o país a uma situação de quase bancarrota, deixando essa conta para os trabalhadores pagarem.

É preciso ir à raiz dos problemas, olhar para as causas, avaliá-las, encontrar responsáveis e puni-los, porque se assim não acontecer, elas persistirão e as consequências serão as que todos nós já conhecemos. Não chega afirmar que o problema é do sistema, mas do resultado deste capitalismo alimentado por uma má gestão política, num contexto de uma Europa desequilibrada por um sistema financeiro destrutivo que provoca a crise na moeda europeia e provoca a desagregação do projecto europeu.
Passou-se de um capitalismo provinciano interno, para um capitalismo global, subjugado por instituições financeiras onde se enquadram os bancos, mas não só, que vivem à custa da produção de dívida dos países menos desenvolvidos, para ganhar com ela. Este sistema encontra-se envolto pela máquina financeira que gera lucros virtuais, através de investimentos e apostas na evolução de preços futuros, emprestando dinheiro umas às outras, o que faz aumentar o capital circulante, através dos juros e comissões a receber. Claro que este tipo de procedimento cria um balão que rapidamente se esfuma, logo que uma das entidades envolvidas neste jogo, falha com os seus compromissos, porque os bancos não possuem activos para satisfazer mais que 5% dos depósitos neles confiados.
Estes 5%, são considerados bancos com alguma saúde financeira, porque os outros onde esta percentagem é inferior, o dinheiro não está disponível para o caso dos depositantes pretenderem fazer avultados levantamentos, obrigando esses bancos a uma constante ginástica financeira, alimentado esse mecanismo de mercado volátil e desregulado, que envolve múltiplos credores e devedores, os quais, assim, vêm aumentar o seu capital, através de empréstimo a juros elevados, aumentando por sua vez as dívidas do sistema bancário, instalando-se o estado de desgraça financeira dos países, que infelizmente conhecemos, a que dão o nome de crise.

Perante estes factos, por que esses artífices de expediente duvidoso, não são chamados à responsabilidade e continuam, como se não tivessem nada que ver com a situação a que nos conduziram, continuando a viver faustosamente, com chorudas reformas, atribuídas pelos lucros supostamente conseguidos, enquanto responsáveis pelas instituições bancárias, quando na realidade aquilo que fizeram foi afundar o país em dívidas.
A razão para que esta atitude tenha prevalecido, durante tantos anos, deve-se em parte, porque a banca tinha a certeza que, em situação de descalabro na engrenagem, o Estado daria cobertura, ou seja, nós os contribuintes, iríamos ser chamados a arcar com as responsabilidades da incúria dos banqueiros na gestão e aplicação dos dinheiros de todos nós, para benefício próprio.
O efeito perverso deste tipo de sistema, alimentado por sofisticadas redes computorizadas, mediadas e aplicando também elas, sofisticados modelos matemáticos, sem qualquer tipo de garantias reais, mais rentáveis se tornam para as instituições financeiras e seus dirigentes, promovendo uma sociedade mercantil num modelo consumista e prestamista, através de hipotecas a juros reais negativos, criando-se a ideia de uma sociedade equilibrada mas que não passa de um paraíso efémero e artificial.

Percebe-se perfeitamente pelo estímulo na indústria imobiliária especulativa e exagerada, que se alimentou à custa da auto valorização no mercado financeiro, para serem adquiridas por outras empresas ou grupos empresariais de maior nomeada, criando-se uma pirâmide especulativa gerada pelo entrelaçamento de toda essa dívida, onde os passivos se convertiam em activos para garantir outros empréstimos, até que os empréstimos se tornaram incomportáveis para pagar aos credores, provocando a insolvência de empresas e pessoas em catadupa, propagando-se em cadeia até atingir o coração do sistema.
Conseguido o desidrato dos banqueiros, perante o perigo de colapso de todo o sistema, os governantes fizeram o gosto ao grande capital, pedindo emprestado, para salvar os bancos e demais instituições financeiras, pondo a nu a discrepância entre a realidade económica e financeira com que nos têm vindo a entreter, enquanto foram colocando os ganhos próprios nos paraísos fiscais.
Resultado desta mirabolante artimanha, a crise financeira de diversos Estados ameaçados de falência, colocando em causa o próprio euro e aumentando o risco de se propagar a outros países suspeitos de futura insolvência. No fim de contas, sendo os bancos alemães e franceses, os maiores credores europeus, seriam estes a suportar o descalabro da situação, pelo que de imediato, a Alemanha e a França desenvolveram todas as providências para impor aos países devedores um resgate, exercendo pressão nos governos desses países, por forma a serem levado a efeito cortes nos gastos do Estado e a redução de emprego e empresas no sector público, hipotecando dessa forma a soberania desses países, que se viram obrigados a privatizar empresas e despedir trabalhadores, reduzir salários e retirar regalias sociais, para poderem pagar aos agiotas que é a Troica.

Resumindo, o capital financeiro continua retirando lucros desta crise por eles criada, intervencionados e recebendo dos Estados dinheiro para se capitalizarem de novo, para depois serem engolidos pelos mercados de capital, através de reprivatizações, dando novo fôlego ao grande capital, domesticando os sindicatos e os cidadãos, a contentarem-se com a sua sorte, transformando aquilo que foi uma crise financeira numa crise política.
Então, porque se transformou esta crise financeira em crise política? Pela razão de ter havido uma ruptura do vínculo entre os governantes e os cidadãos eleitores, porque deixaram de representar os interesses desses cidadãos, fechando-se os partidos dentro de si próprios, transformando a grande maioria dos políticos, numa casta que compartilha o interesse comum de manter o poder dividido entre si, através de um mercado político mediático propagandista, que se vai renovando, pelos mesmos, de quatro em quatro anos, ilibando-se a si próprios, com a concepção de leis que os defende e torna inocentes, da corrupção e dos abusos de poder, já que são eles que têm o poder de designar o mais alto poder judiciário, que se lhes submete.
Enquanto a dívida económica puder continuar a circular pelos mercados financeiros, vamos continuar a assistir ao pacto do poder político com o financeiro e o mediático, visceralmente comprometidos. Este é o verdadeiro sistema em que vivemos, a crise, essa, foi-nos imposta para salvar esta forma de capitalismo selvagem. É preciso defender os valores da democracia que se reinvente através da participação, transparência e que preste contas aos cidadãos, pois só assim a História poderá ser diferente.

João Carlos Soares
Barreiro, 14 de Janeiro de 2014

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