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Quotidianos

Os extremosPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Estranho paradoxo: se por cá existe gente capaz de tudo para sair da Comunidade Europeia, no outro extremo da Europa há quem aceite morrer para poder fazer parte dela!
Pode argumentar-se que esses ucranianos não sabem no que se estão a meter; que eurocéticos há-os em todo o espectro político dos países da comunidade; que a CE está num impasse, se não mesmo em regressão.

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Os extremos Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Que coisas extremas podem tanto opor-se de maneira radical, como parecer apenas faces da mesma moeda, é assunto que tem sido tratado, por assim dizer-se, desde sempre.
Num dos seus sermões, o Padre António Vieira, para ilustrar quão vãs são as coisas deste Mundo, dava o exemplo de, paredes meias, estarem a enfeitar um vivo,, e do outro lado, estarem outros amortalhando um morto.
De fato, para ele, ambas as situações eram naturais e faziam parte da Vida; o paradoxo era apenas aparente.
Temos vindo a assistir ao crescendo da contestação de boa parte dos ucranianos ao seu governo, se não legítimo, pelo menos legal. Estão a ser atingidos níveis que nos fazem pensar que pode estar iminente uma guerra civil.
E, nesta Europa, a guerra civil não pode ser relegada para um passado remoto: para além da Guerra Civil de 1936/39, na vizinha Espanha, os vários conflitos que estalaram mais recentemente na ex-Jugoslávia foram, de início, guerras civis.
Por outro lado, a Ucrânia não é, para nós, um país distante e quase imaginário; temos milhares de ucranianos a viver entre nós, bem integrados e fazendo parte do nosso quotidiano.
O que há, pois, de estranho na Ucrânia?
É ver gente disposta a morrer pela Europa, por essa Europa que, no ideário de muitos, é a origem dos nossos males.
Estranho paradoxo: se por cá existe gente capaz de tudo para sair da Comunidade Europeia, no outro extremo da Europa há quem aceite morrer para poder fazer parte dela!
Pode argumentar-se que esses ucranianos não sabem no que se estão a meter; que eurocéticos há-os em todo o espectro político dos países da comunidade; que a CE está num impasse, se não mesmo em regressão.
Mas para aquela gente, que se opõe à polícia de choque, ocupa praças, conquista ministérios, resiste ao frio, tudo por uma mudança política que os aproxime do resto do continente europeu, para esse sonho (que comanda a vida), os argumentos ditos sensatos não têm sentido.
Utopia? Talvez, ou mesmo sim.
Mas temos visto ciências certas serem cilindradas, doutrinas infalíveis serem derrotadas, dogmas férreos serem pulverizados pela dura realidade.
Este ano comemoramos quarenta anos sobre o 25 de Abril (neste caso, com A maiúsculo).
Nesse dia já distante, e a que boa parte dos portugueses não assistiu porque não tinha ainda nascido, não se encontrou ninguém que quisesse morrer pelo governo (legal, mas não legítimo). Tirando alguns disparos da PIDE, a Revolução decorreu sem derramamento de sangue.
Qual a diferença entre os extremos da Europa?
Primeiro, porque o regime de Salazar/Caetano estava simplesmente podre, e daí que ninguém quisesse morre por ele.
Mas sobretudo porque aqueles ucranianos têm uma ideia e um objetivo, não pela negativa, mas pela positiva, não pela negação, mas pela afirmação.
Nós, no 25 de Abril, não queríamos “aquilo”. E chegou.
Os ucranianos querem a Europa. Chegarão?

Nuno Santa Clara

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