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Quotidianos

HIPERBÓLICOPor Hélio Bernardo Lopes
Barreiro

Ou temos um Estado e políticos moralizadores, ou acabaremos por vir a ter de criar situações de força que permitam governar as atuais sociedades decadentadas.

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HIPERBÓLICO Por Hélio Bernardo Lopes Barreiro

Por Jornal Rostos

Na passada quinta-feira, Francisco Assis deu à estampa o seu texto semanal, desta vez intitulado, O QUE VAI ESTAR EM CAUSA NOS PRÓXIMOS ANOS É A RESPOSTA AOS DESAFIOS DA GLOBALIZAÇÃO. Um título constituído a partir do início do último parágrafo do artigo e tão hiperbólico como este mesmo.
Quem o tiver lido – impunha-se um esforço grande –, terá reparado na forte extensão do texto, embora com apenas sete parágrafos. De um modo muito geral, parágrafos enormes. Sendo o jornal em causa um diário de grande circulação, creio que este texto de Francisco Assis deverá ter ficado deveras longe de ter servido para esclarecer e motivar quem quer que seja. Um texto que se constitui numa excelente estimativa do modo de atuar de uma enorme parte dos nossos intelectuais, muito dados a modelos híper-complexos, ao invés de tão lineares quanto possível. Ao ler este texto, percebe-se a fantástica dificuldade que os dirigentes do PS, e este muitíssimo em particular, têm para analisar e enquadrar o que está em jogo em Portugal e encontrar para tal realidade soluções simples e eficazes.

O primeiro parágrafo é redondo – é o estilo de Francisco Assis – e hiperbólico, dando logo uma ideia de que o autor acabará por não escrever nada de útil e de concreto, antes nos relegando para as profundezas de oceano na busca de uma agulha de ouro que no seu fundo se despenhou. E assim passei ao segundo parágrafo, igualmente grande.
Aqui, Francisco Assis aborda o tratamento dado por José Manuel Fernandes, num seu texto, à visão que do neoliberalismo têm o PS e os partidos de esquerda. Bom, acho que foi pura perda de tempo, porque raros ligarão ao que escreveu aquele, se descontarmos os seus leitores com lugar cativo. Note-se que só escrevo estas palavras depois de ter sondado dez amigos ou conhecidos que lêem o diário onde o texto foi publicado. Pois, caro leitor, nenhum havia lido o texto, estando todos eles pelos cabelos com a atual Maioria-Governo-Presidente, mas também não acreditando no PS. Ao que eu acrescento: eles já não acreditam, isso sim, é no valor representativo da democracia. E veio o terceiro parágrafo.
Neste caso, Francisco Assis deitou-se a operar uma análise às origens e suportes do neoliberalismo, operando uma varridela analítica sobre o tema. Mas é evidente que raros terão lido esta parte, nem pelo que ali está escrito se interessam. E se aqui analisa o neoliberalismo, logo no parágrafo seguinte critica o seu principal expoente e doutrinador, Hayek, continuando a dissecar a sua doutrina no parágrafo a seguir.
Já perto do fim do texto, mas a umas quinze linhas de distância – no penúltimo parágrafo –, lá nos surgiu com o seu acordo à crítica de José Manuel Fernandes aos partidos de esquerda, para quem o neoliberalismo começará na fronteira da sua estrutura esquerdista. Não digo que não, mas a verdade é que não é isto que está em jogo no Mundo atual. Ver Francisco Assis embarcar numa tal interpretação é que me causa admiração, até pelo facto de nunca no seu texto estruturar capazmente o que está em jogo.
Por fim, Assis termina o seu texto com o seu sétimo parágrafo, logo iniciado pela frase que constitui o título do artigo. Palavras que mostram uma marca da terrível prática política que conduziu o Mundo ao seu estado atual: correr atrás dos acontecimentos, completamente incapaz de se escurar em valores naturais, duradouros e de sempre. A força do vento da moda e da desregulamentação, mas a todos os níveis. De molde que aqui vai o meu modo de ver a política.

Em primeiro lugar, o ser humano é uma entidade naturalmente religiosa. Esta caraterística, sendo intrinsecamente individual, tem a projeção no coletivo da sociedade que resulta da organização gregária da mesma. Foi sempre assim na História, sendo que apenas agora, mas quase só no espaço decadente europeu, se tenta travar, mesmo esconder, tal caraterística.

Em segundo lugar, sendo esta caraterística omnipresente, ela acaba por ter projeções na Moral, no Direito, na Ética e na vida profissional, em geral. E todo este edifício se centra sempre na transcendência inerente à vida de cada pessoa, mas também na defesa das condições que permitem manter a sobrevivência das próprias comunidades.

Em terceiro lugar, os dirigentes políticos têm de organizar as sociedades em condições que permitam manter os cidadãos de um modo digno, de molde a que as famílias possam constituir-se, reproduzir-se e manter a espécie humana e os diversos povos e Estados.

Em quarto lugar, é essencial ter presente o que as ciências mais rigorosas nos ensinam e que até somos capazes de reconhecer na vida corrente: as soluções dos diversos problemas são tão mais exatas quanto mais locais. Quando se alarga a escala, mormente caminhando para a globalidade do nosso Mundo, o que surge, e em grande profusão, é o descontrolo de todo o sistema, com a sua marca de sucessivas e dolorosas singularidades. O que significa que não vale a pena continuar a esperar por uma regulamentação capaz da globalidade do sistema humano, porque a mesma nunca chegará.

E, em quinto lugar, é essencial dignificar a vida política, bem como todo o restante da vida em sociedade, mas impondo objetivos limites apertados à possibilidade de obtenção de lucros. Se entre os maiores vencimentos e os menores se superar uma escala de doze, tudo tenderá para o estertor e para uma situação de perturbação. E não vale a pena esperar mecanismos automáticos de equilíbrio, porque não existem. A não ser a guerra. Ou temos um Estado e políticos moralizadores, ou acabaremos por vir a ter de criar situações de força que permitam governar as atuais sociedades decadentadas. Nada é mais simples de enfrentar, mas impõe-se dispor de vontade e de valores a seu montante. É essencial ter a coragem de os reconhecer, aceitar e aplicar, mas com o exemplo a vir de cima.

Hélio Bernardo Lopes

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