A oferta e a procuraPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Por vezes, as noções mais complicadas tornam-se fáceis perante um exemplo comezinho. A Lei da Oferta e da Procura (a Lei Sagrada do Capitalismo), os gráficos e curvas matemáticas, as extrapolações, previsões, simulações e outras maquinações, podem por vezes ser explicadas por exemplos simples.
De resto, foi esse o método usado por Jesus Cristo: explicar o Reino dos Céus por meio de parábolas. Como a da semente de mostarda que, sendo das mais pequenas, dava origem a uma árvore na qual pousavam as aves do céu.
Ora bem. Conheci em tempos um militar que fazia coleção de moedas. Todo o colecionador é um homem feliz, disse Goethe, e ele seria também um deles.
Na altura, a moeda portuguesa mais rara (e mais cara) era um meio tostão de Timor, o que até tem uma certa lógica: emissão curta, curso localizado e distante.
Ora, por acasos da Fortuna, o nosso homem foi mobilizado para Timor. E durante os dois anos de comissão, recolheu afanosamente quantos meios tostões encontrou – e parece que não foram poucos.
Regressando a Portugal, na primeira oportunidade deslocou-se à Feira da Ladra, onde então decorria um mercado livre. Então, abriu um saco que levava e anunciou que tinha ali meios tostões de Timor em barda.
Naturalmente, em vez de aplaudido, foi insultado, ameaçado, e temeu pela sua integridade física. Está bom de ver que a moeda rara se tinha tornado comum, e que quem tinha investido na raridade tinha tido um forte prejuízo.
Moral da história? A Lei da Oferta e da Procura não foi respeitada, com as consequências lógicas.
Outra história semelhante?
Um missionário colocado junto de uma tribo africana notou que as pessoas não casavam, vivendo amancebadas. Indagadas as causas, descobriu que o dote (ou alambamento, se preferem) era tradicionalmente pago com um certo tipo de conchas marinhas e, à falta delas, não havia com que pagar o dote, e não podia haver casamento.
O nosso honrado e prestimoso missionário meteu-se a caminho, e adquiriu um largo carregamento de conchas; voltando à aldeia, distribuiu generosamente o seu tesouro, e puderam assim ser celebrados os casamentos em atraso.
Só que, passado algum tempo, tornou a não haver casamentos. Indignado, o missionário quis saber porquê.
E a resposta foi simples: com aquela invasão de conchas, o preço do dote subira, e não havia conchas que chegassem para os novos casamentos.
Ou seja, o bem intencionado missionário tinha apenas resolvido pontualmente um problema, mas desencadeou um processo inflacionário (com conchas, euros ou dólares, o problema é o mesmo).
Moral da história? A Lei da Oferta e da Procura não foi respeitada, com as consequências lógicas.
Outra história semelhante?
O Governo entendeu, para obter liquidez que tanta falta nos faz, vender em bloco 85 obras de Joan Miró. Só que obras de Miró aparecem normalmente para venda a conta-gotas, e o aparecimento de 85 quadros de uma vez terá o resultado dos meios tostões de Timor ou das conchas do missionário. Para quem se reclama de defensor de uma economia liberal, e com tal deveria ser profundo conhecedor da Lei da Oferta e da Procura, tem que se lhe diga…
Claro que meios tostões ou conchas não são obras de arte; que o nosso património artístico fica diminuído; e que o processo não parece ter sido transparente.
Mas, nas andanças da Estética, tudo é possível. Não me admiraria que, em desespero de causa, alguma alta entidade dissesse que, ao fim e ao cabo, se tratava de arte decadente, e que foi bom Portugal desfazer-se daquele lixo - e ainda por cima lixo bem pago.
Já se viu disso, até em autos da fé, com queima de obras de degenerados, ou de judeus, ou de pagãos, ou de qualquer outra coisa. Um familiar de Toulouse-Lautrec, logo após a morte dele, queimou cerca de 400 quadros deste pintor – o bastante para que a maior parte da obra do artista tivesse ficado no estrangeiro, já que as restantes tinham sido reduzidas a cinza.
Sendo assim, vamos ficar pelo mau negócio.
Mas, sobre a questão estética, o aviso fica dado…
Nuno Santa Clara














