SOBRE A ENTREVISTA QUE NÃO LIPor Hélio Bernardo Lopes
Barreiro

Por Jornal Rostos
Há um bom tempo atrás, talvez um pouco antes do Natal, escrevi um texto ao redor de uma obra do nosso concidadão e jornalista, José Milhazes, de que havia tomado conhecimento no Jornal das Nove, em breve entrevista que o autor do livro concedeu a Mário Crespo.
Ao tempo, uma leitora atenta questionou-se sobre como se poderia comentar uma obra ainda não lida, tendo eu referido que o fizera com base na referida entrevista, mas que completaria a minha posição logo que dispusesse da obra e a tivesse lido, o que fiz. Tendo sempre em conta a minha capacidade de análise, considerei que havia tido razão no meu primeiro texto.
Pois, desta vez, dá-se uma situação parecida, mas ao redor da entrevista concedida por Eduardo Marçal Grilo ao Público, neste passado sábado, entrevistado que foi por Maria João Avilez. Uma entrevista onde, a dado passo, Eduardo Marçal Grilo referiu que o País não resiste a este pingue-pongue.
Acontece, também neste caso, que eu não li a entrevista, quer por nunca ter tido nas mãos um exemplar do jornal em causa, quer por não ser hoje um cidadão com acesso fácil ao que possa ter interesse no seio da nossa comunidade e no tempo que passa, mas por razões materiais.
Simplesmente, operar neste caso um comentário ao sentido geral da entrevista é ainda mais simples do que perorar sobre a obra de José Milhazes, e por duas razões principais: pelo tempo que passa, conjugado com o surgimento desta entrevista, e porque se conhece a posição política teórica do entrevistado.
Ora, o tempo que passa, como ontem mesmo escrevi, é um tempo de ataque a António José Seguro, sobretudo, dos lados de gente do seu próprio partido, mormente da que defende uma coligação com o PSD e o resto da direita. Uma coligação destinada, ao final de todas as contas, a pôr um fim pleno no Estado Social e na Constituição de 1976, abrindo mesmo as portas a uma revisão constitucional no sentido apresentado por Pedro Passos Coelho mal chegou à liderança do PSD.
É neste sentido que tem de ser interpretada esta entrevista com Eduardo Marçal Grilo. E se é verdade que anda por aí o tema das bolsas para doutoramento e pós-doutoramento, a verdade é que a marca escolhida da entrevista foi a antes apontada: o País não resiste a este pingue-pongue. Ou seja: o PS devia dialogar com o Governo, isto é, aceitar o caminho que vem sendo percorrido desde que este Governo tomou posse.
Esta minha última conclusão é absoluta e indiscutível, porque logo neste domingo – ou sábado à noite? –, dirigentes do PSD pediram ao PS que ajude o Governo a resolver a crise, sobretudo nesta fase, e que não volte para trás, ou seja, que ajude a destruir as reformas dos aposentados e pensionistas, a criar mais desemprego, que ajude a diminuir, ainda mais, a estrutura das Forças Armadas, que deixe a Justiça como está a ser colocada, etc..
Quando Eduardo Marçal Grilo refere que o País não resiste a este pingue-pongue, o que ele está a dizer, objetivamente, é que a prática democrática deve ser esterilizada, de molde que quem possa chegar nada mude, até por ter já aceitado tudo o que possa ter sido feito pela atual Maioria-Governo-Presidente. É, indiscutivelmente, mais uma peça do cerco que se está a tentar montar a Seguro, agora que as sondagens indicam um avanço de onze pontos percentuais do PS sobre o PSD, e mesmo com aquele já acima dos partidos da coligação.
Ao longo da tarde deste último domingo, aparentemente por acaso, fui encontrar um velho conhecido meu, hoje pai de um banqueiro, que continua a dizer-se anti-PSD, mas de quem conheço, garantidamente, ter votado Cavaco e PSD. Expliquei-lhe o que se está a passar ao redor de Seguro e perguntei-lhe se, dizendo-se PS – claro que já não é...–, lhe pareciam lógicos os constantes ataques a Seguro, sabendo-se que o PS, seja com quem for, nunca voltará a ter uma maioria absoluta. Bom, lá teve que reconhecer que tais ataques não eram lógicos e que mais de onze por cento é muito bom nas atuais circunstâncias. Além do mais, logo defendeu que, a ter de existir uma coligação pós-eleitoral, devia ser com o PSD, mas não com Pedro Passos Coelho, talvez Rui Rio.
Bom, caro leitor, fartei-me de rir em casa, mormente num telefonema com um amigo com quem falei sobre o que acabara de ouvir. Rimo-nos os dois, tal foi a evidência da falta de valores democráticos a que se chegou, quarenta anos depois da Revolução de 25 de Abril. Nunca me foi dado ver um tão interessante tempo de mentira e cambalhota política.
Hélio Bernardo Lopes














