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Quotidianos

Caius Cilnius MaecenasPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Não é coisa nova este desinteresse público por comemorações que, à primeira vista, deveriam ser consensuais. Em 1880, para o centenário da morte de Camões, o Governo nada tinha previsto; o Partido Republicano aproveitou para fazer as comemorações por subscrição pública, e assim dar uma bofetada com luva branca na face dos poderes instituídos. Mais recentemente, em 2010, quase ninguém deu pelo centenário da República…

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Caius Cilnius Maecenas Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Era este o nome de um ilustre romano do século I A.C. (Antes de Cristo), que ficou famoso como protetor de artistas, nomeadamente de jovens poetas; fez construir uns jardins que também ficaram para a História.
Como muitas vezes acontece, o seu nome passou a ser a designação para qualquer patrono das artes (e artistas, como é lógico), alguém que dedica parte do seu património pessoal a essa meritória atividade. Hoje, o termo mecenas é globalmente conhecido.
Bons exemplos dessa generalização de nomes próprios vêm da mesma época. Brutus era o filho adotivo de Júlio César, que participou no seu assassinato em pleno Senado de Roma: tanto bastou para que uma criatura capaz de tal comportamento fosse considerada… um bruto. Igualmente quanto a Crasso, Severo, Curiácio, e outros nomes próprios tornados nomes comuns, pelas virtudes ou defeitos dos seus primeiros detentores.
Como ainda hoje, quando se chama um quisling a um colaboracionista norueguês da ocupação alemã durante a II Guerra Mundial, isso deriva de Vidkun Abraham Jonsson Quisling, nome do chefe do governo instituído pelos nazis.
O mecenato em Portugal tem casos célebres, como D. Fernando II ou o Conde de Farrobo, no século XIX; mas o caso porventura mais conhecido foi o de Calouste Gulbenkian, no século XX. Bem pode dizer-se que, durante mais de metade do século passado, o verdadeiro Ministério da Cultura foi a Fundação Gulbenkian.
O sistema de mecenato tem, como tudo, vantagens e inconvenientes. Para além da óbvia poupança de recursos, por parte do Estado, que assim delega parte das suas obrigações, o mecenato tem a inegável vantagem de evitar uma estética oficial; ou seja, estando a decisão da escolha das obras e artistas a cargo do mecenas, este segue os seus próprios conceitos (ou da sua equipa), não estando dependente de critérios políticos. Por outras palavras, fica arredado o perigo da “obra do regime”, que tanto tem marcado, em Portugal como lá fora, sobretudo a execução de grandes projetos ou a orientação do conteúdo dos museus.
Tem por outro lado a desvantagem de esses mesmos conceitos poderem não ser os melhores (o conceito é sempre discutível), mas baseados em orientações duvidosas, como por exemplo, fundados em critérios económicos, no reconhecimento de apenas figuras já afirmadas, ou por seguir simpatias meramente pessoais. Nada mais natural, sendo uma iniciativa privada.
Entre nós, essa delegação das obrigações do Estado segue normalmente a via do incentivo fiscal, ou seja, os gastos com atividade cultural podem ser deduzidos nos impostos de pessoas ou empresas.
Bom sistema, diremos nós. Alivia-se o Orçamento do Estado, e evita-se a tal estética oficial, e até a variação de critérios em função dos resultados eleitorais (também há os “artistas do partido”).
Vem esta questão à baila com a proposta da delegação das comemorações do quadragésimo aniversário do 25 de Abril em mecenas eventualmente interessados.
Não é coisa nova este desinteresse público por comemorações que, à primeira vista, deveriam ser consensuais. Em 1880, para o centenário da morte de Camões, o Governo nada tinha previsto; o Partido Republicano aproveitou para fazer as comemorações por subscrição pública, e assim dar uma bofetada com luva branca na face dos poderes instituídos. Mais recentemente, em 2010, quase ninguém deu pelo centenário da República…
O curioso é que aqueles que mais beneficiaram com os acontecimentos são os que se escusam a comemorá-los. Um pouco como disse Oscar Wilde: as mulheres nunca perdoam o bem que se lhes faz. É certo que Wilde não gostava do género, mas o conceito pode ser aplicado a outros grupos sociais.
Não faltou quem quisesse fazer leituras arrevesadas da demissão dos poderes públicos, neste caso. É natural que, em tempos de crise, não haja mecenas em quantidade e qualidade para umas faustosas comemorações. Além de que, entre os potenciais candidatos, também há muitos mal-agradecidos…
Faltando estes, e ausentes os poderes públicos, nada se faria, e o resultado seria uma apagada e vil tristeza – à boa maneira portuguesa.
E a leitura do acontecimento (ou melhor, da falta dele) seria que “a isso do 25 de Abril, já ninguém liga…”.
Será apenas o produto de uma imaginação delirante?

Nuno Santa Clara

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