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Quotidianos

«Novo Barreiro Velho»Por Ricardo Rosado
Barreiro

No plano político, e simultaneamente às intervenções cosméticas que se realizam nas artérias periféricas da zona antiga da cidade, prolifera esta sensação de perda de identidade e que cuja irreversibilidade nos preocupa enquanto barreirenses.

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«Novo Barreiro Velho» Por Ricardo Rosado Barreiro

Por Jornal Rostos

Desde tempos imemoriais que as cidades se constituem como produto das sociedades que as fisicamente construíram e edificaram do ponto de vista cultural mediante processos contínuos e intemporais. De facto, as cidades, desde as pequenas aglomerações urbanas da antiguidade às actuais metrópoles globais, sempre polarizaram importantes funções sociais, economias, patrimoniais e cívicas, constituindo-se um legado das sociedades passadas e, uma plataforma para as vindouras, sendo um espaço de transição por excelência. Todo esse conjunto de valências económicas e sociais, funções cívicas, habitacionais e patrimoniais que se constituem o motor da vida
Nos últimos tempos assistimos à erosão de alguns dos mais emblemáticos espaços do Barreiro Velho – Espaço Chapelaria e Bar Vinícola; elementos simbólicos e aglutinadores de muitas vivências e de um vasto quadro de representações sociais e culturais. Sem cometer a heresia populista de perfilhar alguns dos relatos mais afectivos que relatam a sua demolição, o que não se pode mitigar, por maior que seja a nossa cegueira ou recusa perante a realidade, é que estas referências do edificado urbano barreirense não mais existem.
A demolição destes edifícios, a transferência da farmácia para Coina e o sobejamente conhecido estado de degradação a que se encontram votados o Café Barreiro e a Escola Conde Ferreira, exemplos de património público municipal e cujas propostas de intervenção têm sido liminarmente recusadas, são simplesmente a representação no plano do simbólico do Barreiro Velho a que estamos confinados. No plano político, e simultaneamente às intervenções cosméticas que se realizam nas artérias periféricas da zona antiga da cidade, prolifera esta sensação de perda de identidade e que cuja irreversibilidade nos preocupa enquanto barreirenses. À margem do Programa Repara, por exemplo, e cuja importância se reconhece como indutora de um aumento da qualidade de vida das populações, também existe esta realidade que nem a mais ardilosa das retóricas consegue disfarçar. Nas fronteiras do Barreiro Velho perdem-se paulatinamente as referências do edificado histórico e adultera-se o perfil de comércio local, ao que se adensam questões complexas de segurança e toxicodependência. É esta a visão estratégica em matéria de regeneração urbana para o Barreiro Velho. Sem cometer a leviandade de sobrepor este argumentário ao que constituem os direitos de propriedade privada, à luz do quadro jurídico-legal vigente, o que está em causa sobretudo é a falta de visão estratégica para o centro da cidade: a propalada política de proximidade e participação traduz-se na ausência de um plano, uma ideia, um cronograma, enfim, a ambição de querer preservar e reabilitar o centro histórico do Barreiro, por muitos tratado como “Barreiro Velho”, por outros mais anciãos, e quiçá mais apaixonadamente, por “vila”.
A Vinícola e a Chapelaria já foram, o Café Barreiro, sem uma intervenção coerente e sustentada para lá caminha fatalmente, e o que se segue!? Esta é a questão normativa fulcral em todo este processo de regeneração urbana. O movimento associativo? As referências habitacionais que resistem? O escasso tecido económico, assente sobretudo no comércio local, que ainda sobrevive?
Com a falta de intervenção no edificado urbano e os processos naturais de degradação do espaço público, e para o qual concorre concomitantemente a não revisão do Plano Director Municipal, incorremos hoje no risco de as fronteiras do Barreiro Velho já se estenderem até às principais artérias do concelho, invadindo por exemplo a Rua Miguel Bombarda, outrora fórum pujante de comércio local e desenvolvimento económico.
Este é o processo que melhor classifica a actuação do executivo camarário em matéria de planeamento urbanístico e ordenamento do território. A personificação perfeita da vontade velada expressa num aglomerado difuso de lugares comuns mas onde, infelizmente para a cidade e para os barreirense, a capacidade técnica, política e operacional escasseia.

Ricardo Rosado

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