A Segunda Guerra da CrimeiaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
A subida de tensão na Ucrânia deveria levar as pessoas a procurar mais informação sobre esse grande país. Entre nós, a ideia feita é que a Ucrânia era uma província do império russo, no tempo dos czares, passando depois a ser uma “república nominal” no tempo da União Soviética.
Ora, a Ucrânia é um país enorme, com uma história riquíssima, celeiro da Grécia antiga, ponto de passagem entre a Europa e a Ásia, área de conflito entre a Polónia e Lituânia, e os impérios russo, austríaco e otomano. Tanto basta para nos apercebermos das razões da sua turbulenta história. Até na religião se reflete o peso da História, com os ortodoxos em maioria a Leste e os cristãos uniates (que aceitam a autoridade do Papa) a Oeste, resultado das influências russa e austríaca, respetivamente.
Além disso, é um país de enormes capacidades. Basta lembrar que foi em Kiev que foi construído o primeiro computador soviético e é também na Ucrânia que se situa a fábrica de aviões Antonov, que, entre outas aeronaves famosas, produziu o An-225, o maior avião do mundo.
Entre os inúmeros conflitos que se desenrolaram no território que hoje constitui a Ucrânia está a Guerra da Crimeia (1854-1856). Esta península do norte do Mar Negro era pertença da Rússia, que tinha instalado uma base naval em Sebastopol. A partir daí, esta cidade ficou condenada a vir periodicamente à ribalta. Na guerra da Crimeia foi cercada e bombardeada, tal como na II Guerra Mundial, e agora está de novo debaixo de fogo (pelo menos, mediático).
Para o nosso imaginário, ficou dessa guerra a carga da Brigada Ligeira, como monumento de inépcia e estupidez (a par da bravura dos pobres soldados ingleses ali chacinados). Mas a guerra foi mais do que isso: foi o confronto de vários imperialismos, russo por um lado, inglês, francês e turco por outro.
Foi uma guerra limitada. Todas as partes se concentraram, primeiro nas Balcãs, depois na Crimeia, sem ações militares noutras paragens. Foi uma guerra de cavalheiros: uns quantos militares matavam-se lá pelos fundos da Europa, e no resto dessa mesma Europa as pessoas conviviam, comerciavam, como se se tratasse de um embate desportivo.
Prova de bom senso? Talvez, mas só para quem estava de fora. Mas, na ótica da época, o importante era salvaguardar o stato quo: ninguém desejava um conflito generalizado, até porque as guerras napoleónicas ainda estavam muito presentes. Era o primado da diplomacia entre as grandes potências (a Prússia só passou a grande potência depois da guerra com a França, em 1870-1871).
A Guerra da Crimeia saldou-se por uma derrota russa, mas sem alterações de monta: devolução de territórios ocupados, acerto de fronteiras.
A Ucrânia voltou a estar no centro da tormenta durante a I Guerra Mundial, do lado russo, e na Guerra Civil que se seguiu. Tal como na Finlândia e países Bálticos, o nacionalismo emergiu, como reminiscência do estado cossaco do século XII e do canato da Crimeia do século XVII, e a Ucrânia ascendeu a uma breve independência. Como sequela da Guerra Civil, aponta-se um milhão e meio de mortos.
Pela Paz de Riga, de 1921, a Ucrânia foi dividida entre a Polónia e a nova União Soviética, da qual veio a constituir uma das repúblicas.
O processo de coletivização forçada e as purgas de Estaline cobraram um largo tributo na Ucrânia. A fome generalizada recebeu o nome de Holodomor (uma espécie do holocausto), e estão contabilizadas oficialmente 681.692 vítimas.
A II Guerra Mundial veio novamente a transformar a Ucrânia em campo de batalha. Devido às memórias recentes, em muitos locais da Ucrânia os alemães foram recebidos como libertadores. Os comandantes militares assinalaram o fato e quiseram tirar partido dele, mas, para Hitler, libertar os ucranianos não fazia sentido nenhum: eram untermenshen (sub-humanos), destinados ser eliminados; mas, primeiro, estavam os judeus e os comunistas.
Isto deu como resultado que, na sua maioria, os ucranianos continuaram no exército soviético ou passaram à resistência. No entanto, alguns colaboraram com os nazis, quer nas forças armadas, quer na caça aos judeus ou comunistas, ou como auxiliares nos campos de concentração.
Foi uma coisa que deixou marcas: ainda hoje há quem considere os nacionalistas ucranianos herdeiros dos colaboracionistas, como se viu nalgumas declarações para a TV.
De qualquer forma, o período após a II Guerra Mundial foi o da consolidação da União Soviética. Tinha ganho a guerra, com o preço terrível de 20 milhões de mortos, mas estava, aparentemente, coesa atrás da sua muralha ideológica, e destinada à eternidade. As particularidades regionais pareciam esbater-se, e as pessoas fixavam-se de acordos com as oportunidades de carreira. Assim, às áreas de mais tecnologia acudiam os mais qualificados; no domínio espacial, fixaram-se no Casaquistão, onde fica o centro de Baikonur; na Defesa, nas bases dos países bálticos e da Crimeia. E assim temos minorias significativas de russos, ou mesmo maiorias locais, nesses novos países.
Mas o pós guerra trouxe mais uma alteração: em 1954, por influência de Nikita Khruschev, que havia exercido funções na Ucrânia durante muito tempo, a Crimeia foi integrada na república ucraniana (tratado de Peresyaslav).
Quando da chamada implosão da União Soviética, a Ucrânia declarou a sua independência, como várias outras repúblicas da URSS. Ora, como se disse, várias infraestruturas vitais para a Rússia ficavam fora do seu território. Concretamente quanto à Marinha, parte do litoral do Mar Báltico, bem como do Mar Negro, ficaram fora da autoridade direta da Rússia, e a base de Sebastopol ficava na Ucrânia. Foram feitos vários tratados para salvaguardar estas questões, e a base de Sebastopol ficou arrendada por vinte anos, renováveis.
Tudo correria no melhor dos mundos, se não fosse o choque de interesses entre a Rússia, por um lado, e a União Europeia e os Estados Unidos, por outro. O que parecia ser apenas uma guerra comercial à volta do petróleo e gás natural passou a ser um conflito sobre áreas de interesse.
É interessante analisar os dados do censo de 2001 da população da Ucrânia, por distritos. Foram registados um total de 77,8% de ucranianos e 17,3% de russos no território, mas a distribuição não era uniforme. A percentagem de russos era muito baixa na zona ocidental (historicamente ligada à Polónia e Áustria), variando entre ao 1,2 a 6,7%, subindo a 25,4% em Kiev (uma espécie de enclave), para aumentar nos distritos orientais (contíguos á Rússia), variando entre 29,3 e 74,9%; na Crimeia, a percentagem de russos é de 77%, e em Sebastopol de 96,6%.
Fácil se torna assim explicar o choque de sentimentos entre a maioria ucraniana, localizada a Oeste, e a minoria russa, centrada no Leste e na Crimeia. Panorama infelizmente comum na antiga URSS, que deu já origem às diversas guerras do Cáucaso (Geórgia, Chechénia e outras). No caso da Ucrânia, em tempos recentes, assistiu-se à deportação dos “alemães” (que os nazis haviam considerado Volkdeutshe - povo alemão) e dos tártaros da Crimeia.
A isto, há a acrescentar a influência externa. Os russos são pouco dados a emigrar, mas os ucranianos podem ser encontrados por toda a parte – até em Portugal; como com os nossos emigrantes, há uma influência dessas comunidades na Mãe Pátria.
Ora, por muitas declarações generosas e invocações de direitos sagrados que sejam feitas, fica-nos sempre um fundo de suspeita. É certo que todos os povos têm o direito de decidir sobre o seu destino, mas, quando esse destino faz jeito a uns e não a outros, dá que pensar. Como diz o ditado, quando a esmola é grande, o pobre desconfia.
Não restam dúvidas que qualquer ingerência direta da Rússia na Ucrânia constitui uma violação do Direito Internacional. Mas, com uma maioria de russos na Crimeia, e ainda mais em Sebastopol, ficam questões em aberto.
Primeiro, se ao Sudão do Sul, ou à Eritreia, ou aos países da ex-Jugoslávia, foi reconhecido o direito á independência, porque não à Crimeia?
Segundo, não será o encerramento da base de Sebastopol a forma mais económica de acabar com a presença russa no Mar Negro, e assim pôr termo ao avanço russo para os mares quentes, que foi uma constante da estratégia da Rússia, desde o tempo dos czares?
Terceiro, como disse um dirigente russo, não temos tropas russas na Crimeia; com efeito, basta aliciar os militares (como o Comandante da Marinha Ucraniana) e armar os civis para resolver o problema…
Precedentes, há. Em 1903, a então Província do Istmo da Colômbia entrou em insurreição contra o governo central, o que levou à intervenção (providencial?) dos Estados Unidos em apoio dos rebeldes, acabando na independência do Panamá, com o qual os EUA firmaram um tratado com a cedência perpétua da zona do canal, que começou (providencialmente?) a ser construído no ano seguinte. Todas as tentativas de rever a situação culminaram em golpes de estado, e a Zona do Canal, com16km de largura (e na qual foi instalado o centro de treino militar Escuela de las Americas), que separava o país em duas partes, só em 2000 foi devolvida ao Panamá (o que ainda não se aplicou a Guantamano).
Se mudarmos a doutrina de Monroe America for Americans, para Russia for Russians, teríamos assim uma doutrina coerente a nível global…
Em resumo, como disse um dia Otto von Bismark, em política, o que parece, é; não é por acaso que Henry Kissinger tinha uma grande admiração por ele. As grandes declarações, baseadas em sagrados princípios, são sem dúvida importantes; mas importante é também saber que interesses se movem por detrás dessa cortina, não de ferro, mas de fumo.
E é por isso que penso que não haverá a Segunda Guerra da Crimeia, mesmo limitada, como a Primeira; porque, tal como na primeira, o bom senso e a busca do equilíbrio hão de prevalecer.
Nuno Santa Clara














