Desci à cidadePor Maria Jorgete Teixeira
Barreiro

Por Jornal Rostos
Desci à cidade, entrei no mercado, dei com um alfarrabista simpático e pus-me a bisbilhotar os livros. Aos montes, edições antigas e recentes, com capas rotas, forradas de papel ou tecido, assinados, com dedicatórias, outros ainda inviolados, e tive pena das letras aprisionadas e lançadas ao abandono. Peguei em vários, escolhi um da Rosa Lobato de Faria “ Os três casamentos de Camilla S.”.
Do lado de fora o parque Catarina Eufémia. Dou de caras com o Alfredo da Silva a quem fizeram descer do pedestal e assentar os pés no chão como os demais. Como se assim se revertesse o tempo e os senhores fossem obrigados a comer do mesmo pão, aquele que o diabo amassou…
Sento-me numa esplanada. O céu está azul e as árvores estão despidas de pássaros a esta hora, mais tarde virá a revoada de asas e de bicos. Agora tudo se pacifica, os baloiços estão imobilizados sem o bulício das crianças e duas senhoras já “entradotas” adormecem conversas. Os toldos brancos filtram a luz e um vento fresco baloiça as folhas de uma planta de bambu presa num vaso.
Sinto-me aconchegada dentro desta moldura de gente a espreguiçar na manhã solarenga. Faço parte deste mundo e ao mesmo tempo não lhe pertenço.
Ninguém dá pela minha presença a não ser a empregada, uma menina loira, de calções de ganga e umas pernas esguias enlaçadas por umas meias pretas onde transparece a carne. Volteia como borboleta acabada de sair da crisálida e ri como se não soubesse da vida…
A música, que as vozes fazem, embala as palavras que vou escrevendo num papel que apanhei no fundo da mala, semi - amarrotado.
De vez em quando poisas ao meu lado como gaivota que vai beber ao mar e procura em terra abrigo para as tempestades. Sei quando chegas porque te penso antes, quando os nós dos meus dedos embranquecem na tua ausência. Dividimos os silêncios e dizemos parvoíces como dois adolescentes. O teu beijo entra como raio de sol no meu cabelo, pegas-me na mão e as tuas pernas longas tocam ao de leve no meu joelho. Brindamos à vida até o vinho morno se avermelhar no sangue. E assim ficamos até nos fazermos ilha no oceano das vozes.
Decides então que é hora de partir. Mas a saudade não fere, será apenas um grão de areia no tempo que escorre.
As minhas mãos sabem que voltarás…
maria jorgete teixeira














