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Quotidianos

Deixa-os pousar…Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Imagine o leitor que o Governo, ávido de contribuições, cobrador compulsivo de tudo quanto possa concorrer para a redução do deficit, se lembrava de que as esmolas depositadas à porta das igrejas constituem uma transação: de imediato, passava o cobrar IVA sobre as esmolas, e ao máximo da tabela, já que, para os neo liberais, a caridade não faz sentido, tratando-se portanto de um luxo…

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Deixa-os pousar… Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

É este o final de uma anedota picaresca, em que um galarote atrevido e vigoroso, depois de ter derrubado (termo brasileiro) todas as galinhas do quintal, finge-se morto, para atrair corvos e abutres; quando o dono, julgando-o defunto, o quer levar dali, o insaciável galaroz murmurou: deixa-os pousar!
Assim estamos nós. As pessoas da minha idade lembram-se decerto do tempo em que os depósitos bancários à ordem venciam juro; se não me engano, os bancos pagavam 0,5% sobre o depósito médio anual dos seus clientes. O que tinha lógica, e em dois aspetos. Um, porque aumentava a liquidez dos bancos, e estes, fortes com esta disponibilidade, podiam mais facilmente cumprir a sua missão de, com dinheiro, gerar dinheiro. Não através da especulação, off shores e traficâncias diversas, mas pelo poder multiplicador que os depósitos permitem, dentro do quadro legal e dos parâmetros reguladores dos bancos centrais. O outro aspeto era o de evitar que o dinheiro andasse por aí, ao alcance de qualquer gatuno, de mão armada ou de lábia pronta. Quem não se lembra do slogan “não guarde o dinheiro no colchão”?
A campanha deu resultados, e o dinheiro passou a ser depositado nos bancos. Ótimo, ou nem por isso? É que existem os insaciáveis, e estes são exímios em transformar uma mera opção numa obrigação. Não é só deixar mal visto quem não tenha um carro do último modelo, ou um telemóvel da derradeira geração. É preciso que toda a gente se sinta na obrigação de ter o dinheiro nos bancos (independentemente das vantagens que isso traz), para depois tirar partido dessa imposição.
Ou seja, primeiro, obriga-se toda a gente a recorrer aos bancos: mais seguro, mais cómodo, mais controlável. Depois, o vantajoso torna-se obrigatório.
E, uma vez pousados os depositantes, como as aves da anedota, há que os depenar. Já que não podem fugir, porque não transformar uma benesse para os bancos num serviço oneroso para quem lhes faculta essa benesse? É uma questão de marketing. Assim, convencem-se as pessoas de que, em vez de estarem a contribuir para a liquidez do banco, este é que é a vítima do dinheiro que lá cai, portanto, nada mais natural que cobrar pelo bem que se lhe faz…
Imagine o leitor que o Governo, ávido de contribuições, cobrador compulsivo de tudo quanto possa concorrer para a redução do deficit, se lembrava de que as esmolas depositadas à porta das igrejas constituem uma transação: de imediato, passava o cobrar IVA sobre as esmolas, e ao máximo da tabela, já que, para os neo liberais, a caridade não faz sentido, tratando-se portanto de um luxo…
Assim como os bancos: as pessoas põem lá o dinheiro, que faz um jeitão aos ditos bancos, e ainda terão de pagar por cima.
Ora, as pessoas, face a este sistema de pagar para ter dinheiro no banco, facilmente voltarão aos tempos idos do mealheiro ou do colchão, que não cobram taxas e até estão mais disponíveis.
Até que se faça nova campanha para captação de poupanças, isentando os depositantes de taxas e até (quem sabe?) voltando a pagar juros pelos depósitos à ordem…
Entretanto, iremos ser espoliados, porque, como as aves da anedota, fomos poisando sem ter em atenção o perigo vindo de pássaros aparentemente inócuos.
Só que, desta vez, são os corvos e abutres que nos vão espoliar, e não os avanços e atrevimentos de um galarote pimpão e marialva.

Nuno Santa Clara

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