Só os burros é que não mudam!Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Esta frase, dita pelo então Presidente da República Mário Soares, escandalizou muita gente. Afirmação leviana, demonstração de frio calculismo, pragmatismo galopante, de tudo foi acusado.
Mas, na verdade, os burros não mudam, ou, se mudam, é à cacetada. Qualquer saloio da velha guarda pode confirmar esta verdade, que só não é eterna porque os burros só foram domesticados há cerca de 20.000 anos.
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades”.
Assim escreveu Camões, provando que não era burro.
Há bem poucos dias, um importante líder de uma confederação patronal veio a público dar o dito por não dito, desvinculando-se do “Manifesto dos 70”; e mais disse que o tinha subscrito por estar de acordo com o texto, mas que o aproveitamento político dado o tenha levado a rever a sua atitude.
Não passa pela cabeça de ninguém que uma pessoa tão altamente colocada e com tão elevadas responsabilidades vá levianamente subscrever um documento, num impulso momentâneo, logo seguido de arrependimento.
Portanto, ou aqueles, ou parte daqueles, que nele tinham depositado confiança lhe fizeram sentir que tinha ultrapassado a delegação de poderes, ou então o peso do aproveitamento político foi de fato excessivo.
O Homem é um animal político, disse Aristóteles, e assim tem continuado a ser. Logo, todas as suas atitudes são políticas, tanto na ação como na omissão. Dizer que “eu não me meto em política” é o mesmo que declarar a sua militância: são apenas as duas faces da mesma moeda.
Logo, renegar o Manifesto é uma atitude política, porque ditada por uma ação política – como política tinha sido a sua subscrição.
Há no entanto ainda uma certa resistência quanto a classificar certas atitudes como políticas, ocultando-as por detrás de um véu diáfano de tecnocracia ou de outra razão mais ou menos científica. Mas, por detrás desse manto diáfano da tecnocracia (Eça de Queirós diria da fantasia) está a nudez crua da política (Eça diria da verdade).
Não vamos decerto pensar que aquele ato de contrição foi ditado pelos poderes instituídos. Que diabo, o senhor representa uma força ativa no País – do País real, o que trabalha e produz, e não o do manto diáfano da política.
A grande questão está na politização do Manifesto. Mas não era ele político? Decerto que sim, mas não no sentido corrente.
A simples consulta dos subscritores do Manifesto mostra que a sua abrangência é grande; diria que quem não o subscreveu é porque estava empenhado. Até umas dezenas de generais na reserva o vieram a subscrever, não porque programavam um golpe militar, mas porque exerciam o seu pleno direito de cidadania.
E o que ninguém parece notar é que os termos do Manifesto representam, não um apelo à rebelião, mas um apelo ao bom senso. Ou seja, está fora de causa a revolução libertária: o que interessa é a solução do problema pela via capitalista, na sua forma saudável, e não pela especulação desenfreada, a ser suportada pelos contribuintes.
Fórmula que toma força em todo o Mundo, mas que aqui parece haver quem não esteja interessado nela.
Ou será que estamos condenados a ser uma espécie de reserva natural de bons selvagens, prontos a aceitar as receitas de uns tantos “missionários”?
Se assim for, então o corolário da afirmação de Mário Soares é que os burros, de fato, não mudam.
Nuno Santa Clara














