Retrato de famíliaPor Rosalina Carmona
Barreiro

Por Jornal Rostos
A menina desta fotografia sou eu, com os meus irmãos José e Francisco (ao meio). Eu tinha 4 ou 5 anos (1963/64). Os meus irmãos não usavam sapatos, porque não tinham. O Chico, que só andou na escola até à 2ª classe, teve os primeiros sapatos apenas quando começou a trabalhar, com 10 ou 11 anos. Custava-lhe muito andar descalço e andava sempre com os dedos dos pés entrapados e feridos, das topadas que dava. Eu, aqui, tinha uns sapatinhos de plástico, que me oferecera um vizinho emigrante em França. Nesta foto, não estão o meu irmão mais novo, o Manuel, porque nasceu apenas em 1965 e o meu irmão mais velho, o António, porque estava a trabalhar. O seu salário era essencial para o sustento de todos nós, porque o meu pai, que já sofrera 6 prisões nas cadeias da PIDE, raro conseguia trabalho e a minha mãe o mesmo; porque lá, na aldeia de Pias, Baixo Alentejo, os agrários não lhes davam trabalho, para nos penalizar, ainda mais ao meu pai, pelas suas ideias e actividades políticas. Nas cadeias da PIDE o meu pai passou mais de 5 anos, e nem todas constam dos seus processos na Torre do Tombo, como recentemente descobri. Foi durante uma das suas prisões que eu nasci, em Maio de 1959.
Parte das suas prisões deveu-se a ter participado em lutas nas praças de jorna, pelas 8 horas de trabalho e por ter promovido reuniões clandestinas de trabalhadores rurais em Pias, uma das quais em 1953 «no Monte dos Lagares-Penedo d’Abruta, herdade do Doutor Pereira» onde «trataram das reivindicações de salários durante as ceifas, tendo ficado assente entre todos que ninguém se apresentaria ao trabalho das ceifas do trigo sem que fossem remunerados com cinquenta escudos diários. Que à citada reunião assistiram cerca de cinquenta trabalhadores rurais».
Isto, segundo o relatório da PIDE, consta num dos processos que a Polícia Política de Salazar instaurou a meu pai, António Borges Pica. Neste relatório são ainda citados os seus companheiros de trabalho «António Joaquim Cardoso “O Caga-Ninhos”, Bento Rosa Martins “O Bento dos Santos”, Francisco Filipe Chorão “O Francisco Carrasco”, António Moiralinho, Pedro Rodrigues Monge, Bento António Venâncio “O Bento Coelho”, António Joaquim Guerreiro “O Pintalhaço”, Luís Baião ou Luís Carvão, Manuel José Janeiro Ferreira “O Manuel Pequenino”, Adolfo Barbosa Bexiga “O Carolo”, Fernando dos Santos “O Fanina”, António Moriés Pica, Mário José Valente ou Mário Madeira, Domingos Machado Valente e Rafael Rodrigues Quaresma.» Torre do Tombo, PIDE/DGS, Proçº 1841/54, NT 5108.
A acusação ou motivo das suas prisões são, como consta dos processos da PIDE «Suspeita de pertencer à organização secreta e subversiva que usa a designação de partido comunista português».
A Polícia Política de Salazar era particularmente cruel, incentivando os patrões para que não dessem trabalho às famílias dos presos políticos, para que todos sofressem na pele as consequências. Na minha família sentimos isso directamente e muitos foram os dias, em que nem uma côdea de pão duro havia, para matar a fome.
Isto não é um conto, mas é uma história real que me acompanha desde a infância e é parte da História do Portugal fascista, derrubado com a Revolução de Abril. 40 anos passados sobre o 25 de Abril quero partilhá-la com todos, especialmente os mais jovens que não viveram neste período negro da história do nosso país e, particularmente, com os barreirenses, muitos dos quais conheceram, viveram e sofreram tanto ou mais do que eu e a minha família.
Hoje até parece que todos gostam do 25 de Abril, no entanto, os principais objectivos da revolução de Abril são permanentemente atacados pelos poderosos, pondo em perigo os ideais do 25 de Abril. Assim, é preciso lutar para que não se apague a memória! Porque o fascismo existiu e está aí à espreita, de novo, em Portugal e na Europa.
Barreiro, 22 de Abril 2014
Rosalina Carmona














