40 Anos de 25 de AbrilPor Carlos Sargedas
Sesimbra

Por Jornal Rostos
Falar do 25 de Abril de 1974 é também falar de uma das minhas maiores experiências no teatro e como ser humano. Embora na altura com apenas 14 anos, tinha na época algum contacto direto do que era a censura no teatro com os agentes da PIDE a visitar constantemente os bastidores.
Descendente de uma família ligada ao teatro comecei cedo a pisar os palcos e os estúdios do rádio Club Português, onde na altura estaria a fazer um dos protagonistas de um folhetim radiofónico chamado "Os Esteiros" de Soeiro Pereira Gomes.
Desde muito cedo fui um dos poucos privilegiados na minha juventude a ter noites de tertúlias com alguns dos grande escritores e atores de então, após as peças no Teatro Vasco Santana, Maria Matos ou Monumental.
Rogério Paulo, Luís de Stau Monteiro, Rui Furtado, Rui de Carvalho, e Bernardo Santareno, o escritor que marcou a minha então jovem "vida revolucionária" eram companhia normal onde a cultura, a revolução e o teatro estavam quase sempre de mãos dadas.
Nesta data trabalhava no Teatro Maria Matos como ator, quando logo após o 25 de Abril surgiu Bernardo Santareno com um manuscrito chamado "Português Escritor, 45 anos de Idade", uma peça que relatava os 45 anos de ditadura fascista com uma série de recriações feitas através de projeções de filmes reais e cénicas numa encenação brilhante de Artur Ramos.
O campo de concentração do Tarrafal, a guerra colonial, a luta partidária e as torturas que muitos sofreram e morreram pela Liberdade, o medo, as invasões aos domicílios, as denúncias pelos vizinhos...
Na peça eu fazia de filho da atriz Irene Cruz e Victor de Sousa e neto do saudoso ator Rogério Paulo que no seu leito de morte me faria jurar lutar pela Liberdade. Rogério Paulo, um dos grandes atores da época que sabia na pele a verdadeira história. Era com grande emoção que o via representar quase a sua própria historia de vida, pois também ele foi perseguido pela PIDE.
Vivíamos em plena revolução e durante meses as lotações esgotavam e transformavam o teatro diariamente num comício, onde nas palavras de ordem "O Povo Unido Jamais Será Vencido!" eram na época o slogan de todo um país que explodia de Liberdade sem muitas vezes perceber o que isso era. A peça era profunda e muitas eram as vezes que a cena era interrompida por longas salva de palmas e gritos contra o Fascismo. Mesmo no final da peça, ouviam-se passos de marcha dos soldados que iriam aumentando de volume quase até sermos esmagados pelos "botas da Tropa".
Também aqui eu sentia verdadeiramente a cena, pois na vida real também cheguei a ser empurrado nas ruas do Rossio pelos cavalos e policia montada para dispersar manifestações de estudantes, e fugíamos para dentro das lojas.
No palco, a "multidão" juntava-se num ato de medo e de proteção aos filhos mais pequenos... e bem lá do fundo surgia eu, ultrapassando tudo e todos e de braço estendido oferecia ao exercito um Cravo Vermelho.
Era o delírio! O Publico levantava-se e batia palmas, choravam e agarravam-se uns aos outros num abraço difícil de descrever.
Após meses esgotados começamos numa digressão pelo país... fábricas, teatro, cinemas, espaços ao ar livre, caixotes e ainda recordo termos feito a peça numa fábrica de máquinas industriais e foi o conjunto dessas caixas que se formou o palco.
Foram meses e meses de uma intensidade emocional incrível! Eu redescobria um Portugal adormecido e que agora gritava por Liberdade!
Nos anos seguintes seguiram-se uma série de peças de escritores que até aqui estariam proibidos em Portugal onde Bertrolt Brecht ainda hoje é um dos grandes registos.
Depois disto, o teatro nunca mais foi o mesmo, nós também não mas o país também não.
Passados estes 40 anos é com saudade que recordo uma série de atores e escritores que fizeram também eles um pouco daquilo que sou hoje, Bernardo Santareno é efetivamente um deles.
Carlos Sargedas
25 de Abril de 2014














