We Shall Dance ...”Por Florbela Viegas
Barreiro

Por Jornal Rostos
Foi numa tarde ensolarada, junto ao rio, que o vi . Uma brisa tépida trazia o som de uma velha balada do grego Demis Roussos, e tudo à minha volta parecia respirar o Aniversário de Abril.
Chamei-o, mas ele furtou-se ao encontro, apressando o passo, com o olhar parado de quem já viu tudo e não ousa ter curiosidade.
Corri para ele, estendendo-lhe um abraço, e indaguei, em silêncio, o motivo por que tentou passar despercebido, ignorando a minha presença e a minha alegria em reencontrá-lo.
Ele quedou-se, de olhar triste, encostado a si próprio.
- “Desculpa, Amiga, não leves a mal. Caminhava absorto nos meus pensamentos e nunca imaginei que fosses tu quem me chamou. Há muito que não te vejo, e não te sabia por cá”, respondeu-me ele, timidamente, ao mesmo tempo que apertava um dos botões do casaco, num gesto elegante, que lhe era tão característico, quando interpelado.
Foi então que reparei na palidez do seu rosto e no fato poído, de tom cinza, amarfanhado, que já conhecera melhores dias.
- “Estás doente, não estás?”, perguntei.
- “Mais ou menos. Tenho aquela doença chamada crise aguda do desemprego crónico”, respondeu, com o esgar de quem acaba de tomar um remédio amargo.
- “A minha empresa fechou há mais de dois anos e, desde aí, ando a bater de porta em porta, em vão. Alguns dizem-me que já não tenho idade. Imagina, aos quarenta e cinco anos, um gajo já é considerado velho, fora de prazo, e não há canudo que resista nem experiência que lhe valha. Estou esgotado, cansado de ser tratado como um malfeitor e, neste momento, vou ter de emigrar, porque o futuro em Portugal é um muro que já não consigo escalar”.
Eu escutava-o em silêncio, com um nó na garganta, que me impedia de falar. Pensava com os meus botões que não há nada mais triste do que um homem vencido pelas circunstâncias da vida, que pensa que deixou de ser um exemplo para os seus filhos, com um sentimento de derrota por não o deixarem viver e ser feliz no seu país.
Fomos caminhando ao acaso, embalados pelo som da velha balada que continuava a chegar até nós, na voz gemente do cantor.
- “We shall dance…”, um dia, quem sabe, quando pudermos pagar todos os violinos do baile, murmurou ele tristemente.
Ainda lhe restava Esperança e Dignidade.
Despedimo-nos.
Abraçou-me como só um verdadeiro Amigo sabe abraçar.
E partiu, trauteando a canção.
Florbela Viegas














