Chamava-se Catarina e a sua memória passa pelo Barreiro!Por Rosalina Carmona
Barreiro

Por Jornal Rostos
No dia 1º de Maio de 1974, escassos dias após a Revolução de 25 de Abril, realizou-se uma Assembleia Popular no Barreiro na qual, entre outras decisões, a população reunida aprovou a mudança de nome do então Parque Oliveira Salazar, para Parque Catarina Eufémia. Esta decisão viria a ser ratificada na reunião de 10 de Maio da Comissão Administrativa da Câmara Municipal do Barreiro, investida em funções pelo MFA quatro dias antes.
Quarenta anos após a Revolução e sessenta anos passados sobre o assassinato de Catarina Eufémia, valerá a pena evocar a memória de alguns factos.
A 19 de Maio de 1954 a ditadura de Salazar cometeu um dos mais hediondos crimes, ao assassinar a tiro uma camponesa alentejana. Chamava-se Catarina Eufémia, a ceifeira morta pelas balas do Tenente Carrajola, comandante da força da Guarda Nacional Republicana que, no Monte do Olival, perto de Baleizão, disparou à queima-roupa sobre um grupo de mulheres e crianças. As camponesas, à frente de um grupo de homens, dirigiam-se em protesto à herdade do latifundiário Fernando Neves Ribeiro, onde um rancho de camponeses de Penedo Gordo já iniciara as ceifas.
«As jornas eram de 12$00 para as mulheres e 20$00 para os homens. Os camponeses de Baleizão, que já tinham conseguido conquistar com a sua luta 20$00 para as mulheres e 30$00 para os homens, decidiram ir falar com os de Penedo Gordo para combinar jornas e irem todos à mesma praça. Ao chegarem à herdade foram recebidos por uma força da GNR, que o feitor já tinha requisitado, e que se escondeu atrás dos molhos ceifados. O comandante da força fez uma rajada de metralhadora contra os camponeses.» Jornal “Avante”, Série VI, nº 187 (Maio 1954).
Por esta altura, nos campos do Alentejo, os assalariados rurais travavam lutas heróicas por jornas mais altas, que a ditadura reprimia com particular ferocidade, fazendo prisões e semeando o terror. Ainda assim, o povo organizava-se e resistia conforme refere o jornal “Avante”, a propósito de uma greve vitoriosa de mais de 200 camponeses em Vale de Vargo, ou a grande jornada de paz do povo de Pias, em que «cerca de 1500 pessoas, entre as quais muitas mulheres, se juntaram e percorreram as ruas cantando um hino progressivo e dando vivas à Paz, à Liberdade, a Álvaro Cunhal, a Francisco Miguel, à Engenheira Virgínia de Moura, à escritora Maria Lamas, ao Professor Rui Luís Gomes e a outros defensores da Paz.» A jornada de Pias foi motivada pela prisão de 7 jovens, que permaneciam no Posto da Guarda Republicana.
Catarina, camponesa, quando tombou levava ao colo o seu menino mais novo, de 3 anos de idade. A sua morte deixou órfãs duas crianças que, por falta de condições absolutas da família, foram entregues a uma instituição na cidade de Beja.
O assassinato de Catarina despertou uma onda geral de comoção e no Barreiro em particular, vila operária de grande tradição comunista e revolucionária. Talvez por isso, os filhos de Catarina vieram parar ao Barreiro e por altura das eleições de 1969, já aqui se encontravam a viver. Foram acolhidos solidariamente na casa de uma família anti-fascista – a Dona Zulmira da pastelaria “Boleira do Parque” – que lhes deu trabalho no seu estabelecimento, situado frente ao Parque no centro do Barreiro.
A Dona Zulmira tinha dois filhos, um dos quais o artista plástico barreirense Silva Vieira, que foi autor de uma gravura de Catarina, utilizada como material de propaganda pela CDE, na campanha para as eleições de 69. O caso era por isso bem conhecido da população do Barreiro, que inclusive conhecia os órfãos de Catarina, um dos quais ainda continua a viver no Barreiro.
Daí que, após o 25 de Abril, tenha sido uma decisão natural, aquela tomada de posição da Assembleia Popular em dar a um dos locais mais emblemáticos da vila operária, o nome de Catarina Eufémia.
E eis como assim se explica esta ligação de Catarina ao Barreiro que, a algumas pessoas mais novas, ou menos conhecedoras do passado desta terra, poderá parecer um pouco estranha. Provavelmente Catarina nem nunca terá passado pelo Barreiro, sequer a caminho de Lisboa, que foi assim que tantos e tantos alentejanos conheceram e fixaram o nome desta terra, símbolo de resistência e solidariedade.
Contudo, a população do Barreiro quis homenagear a camponesa alentejana assassinada pela GNR e o seu nome, Catarina Eufémia, foi colocado e ainda hoje permanece num dos locais mais nobres da cidade. Em tributo ao seu sacrifício e em memória da luta contra o fascismo, travada por gerações de barreirenses e alentejanos.
(Texto baseado no jornal “Avante”, documentos do Arquivo Municipal do Barreiro, correspondência particular e testemunhos orais)
Rosalina Carmona














