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Quotidianos

O SALDO DE UMA PATRANHAPor Hélio Bernardo Lopes
Barreiro

Entre nós estes resultados constituem um sério aviso, sobretudo, ao PS. Uma democracia não pode ser apenas mudar quem lidera o poder. Tem de ser, acima de tudo, uma mudança de política. No nosso caso, uma mudança que ponha fim no regresso à pobreza, à miséria, à emigração, à perda no acesso à Saúde e à Educação e que defenda a Segurança Social Pública, mais que sustentável, como de há muito está demonstrado. E que reponha, no prazo de uma legislatura, o que sempre havia sido dito que seria reposto.

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O SALDO DE UMA PATRANHA Por Hélio Bernardo Lopes Barreiro

Por Jornal Rostos

Tiveram lugar, finalmente, as eleições para deputados ao Parlamento Europeu, com resultados muito significativos, o principal dos quais foi a abstenção. Dado que escrevo este artigo cerca de quinze minutos após o conhecimento das primeiras estimativas oferecidas, poderei cometer erros de natureza quantitativa. Não creio, porém, que estes, a terem lugar, retirem valor à análise qualitativa do que se passou.
Em primeiro lugar, nós estivemos, depois das mais recentes declarações de Merkel e de Sarkozy, perante uma autêntica patranha: quem vai liderar a Comissão Europeia, com a sua equipa de comissários, está já decidido, e aponta-se, já de um modo imperativo, para uma Europa a duas velocidades, comandada pelo eixo franco-alemão e com centro no seio desta estrutura. O fim, pois, de qualquer sonho europeu, como há dias nos referiu José Gil. Uma eleição que foi, de facto, uma patranha.
Em segundo lugar, e perante tudo isto, compreende-se muitíssimo bem o cabal desinteresse da grande maioria dos portugueses por estas eleições, até porque nunca foram auscultados sobre as sucessivas perdas de soberania que Portugal tem vindo a sofrer deste o fatídico pedido de adesão à Europa. Algo inacreditavelmente, é hoje mais proibitivo discutir uma saída do euro – e já nem falo da União Europeia – do que debater possíveis independências das antigas províncias ultramarinas com Salazar e amigos íntimos!
Em terceiro lugar, é preciso perceber, e de uma vez por todas, esta realidade objetiva e hoje já indiscutível: a generalidade dos povos europeus, já integrados na União Europeia, está farta desta realidade. Só ainda pedem a adesão os que estão fora, esperando poder, por esta via, obter os fundos estruturais de uma entidade, muito provavelmente, com os dias contados.
Em quarto lugar, só é possível compreender bem o significado destes resultados através das reações dos conhecidos de cada um e que vivam o fenómeno partidário de um modo ainda intenso. Neste sentido, quando na noite deste domingo, já depois das dez, se iniciaram as convivências correntes, a reação dos militantes do PSD e do CDS/PP meus conhecidos eram as de duas tremendas cacholas. Eles não olhavam ao resultado do PS, mas sim ao seu, abaixo dos trinta por cento dos votos validamente expressos. Nem a um terço chegaram!
Em quinto lugar, é essencial perceber que se o voto fosse agora obrigatório, teríamos uma de duas situações: ou a correspondente percentagem de votos brancos ou nulos em valor equivalente ao montante que agora não foi validamente expresso, ou uma tremenda chapelada, ao serviço de interesses comuns de subsistência e de aparência do sistema apodrecido a que se chegou. O dia-a-dia dos nossos jornalistas e comentadores constitui, infelizmente, um verdadeiro suporte desta situação em que estamos. Também para eles as pessoas, com os seus direitos conquistados, deixaram de contar. Dinheiro e contas, lucros e aquisições, passaram a ser os novos valores da vida em sociedade.
Em sexto lugar, a queda do Bloco de Esquerda, fruto, acima de tudo, da saída de Francisco Louçã. Objetivamente, a atual liderança não consegue levar a carta a Garcia. Nem desta vez nem das próximas. Depois, o potencial enorme – já era evidente – de António Marinho e Pinto. E foi apenas o começo, porque tudo faz crer que se irá bem mais longe. E não tem nada que ver com populismo, antes com a coragem de falar sobre o que os do poder sempre silenciaram. E, a seguir, a grande subida da CDU, na sequência de tudo o resto, mas, muito acima disso, da muito bem definida e passada mensagem eleitoral: é preciso equacionar uma saída de Portugal da Zona Euro. Diga-se o que se disser, o mesmo nos vem dizendo de há muito João Ferreira do Amaral.
E, em sétimo lugar, o resultado do PS, que admito, neste momento, poder vir a ser da ordem dos trinta e três por cento. Tal significará um resultado abaixo das previsões anteriores, e que só pode ser explicado pela elevada abstenção. E isto porque o resultado da atual coligação de poder andou ao redor das suas anteriores previsões. Tudo bateu certo, exceto o PS em relação ao máximo absoluto anteriormente previsto. A causa foi, pois, a enorme abstenção, que teria sempre de atingir mais os votantes do PS. Ainda não se acredita suficientemente no PS, mesmo fartíssimos da atual maioria de poder.
Não é, porém, um problema de ser Seguro a liderar, mas de clareza: se a direita destruiu direitos fundamentais dos portugueses e desde sempre defendidos pelo PS – os tais seus valores fundacionais –, é seu dever, sobretudo se quiser vir a governar, repor o que foi retirado, sem lógica e menos ainda moral, aos portugueses. Estes exigem clareza ao PS, com ou sem Seguro.
Entre nós estes resultados constituem um sério aviso, sobretudo, ao PS. Uma democracia não pode ser apenas mudar quem lidera o poder. Tem de ser, acima de tudo, uma mudança de política. No nosso caso, uma mudança que ponha fim no regresso à pobreza, à miséria, à emigração, à perda no acesso à Saúde e à Educação e que defenda a Segurança Social Pública, mais que sustentável, como de há muito está demonstrado. E que reponha, no prazo de uma legislatura, o que sempre havia sido dito que seria reposto.
Por fim, o que irá fazer o Presidente da República. Nada. Como sempre fez até aqui, para lá dos obstáculos que foram crescentemente surgindo com o anterior Governo, e da linearidade no apoio às desastrosas políticas do atual, agora bastamente castigadas pelos eleitores. Sendo intelectualmente honestos, não existe um infinitésimo de esperança no atual Presidente da República. Temos, pacientemente, que esperar pelo final deste seu mandato. E retomar, depois, o juízo no dia da escolha eleitoral presidencial.
E convém não deixar passar ao lado esta realidade muito objetiva: sendo uma enorme derrota da atual Maioria-Governo, ela é-o, por igual, do Presidente da República, dado que só foi possível chegar-se aqui com a política desta Maioria-Governo-Presidente. Uma coisa é saber se estes resultados foram uma grande vitória do PS – não foram –, outra a de que se está perante uma copiosa derrota da atual Maioria-Governo-Presidente. E isso sim, está.

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