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Quotidianos

O TERRAMOTOPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Os percursores da unidade europeia, e os seus fundadores, sempre pensaram que a União seria a panaceia para todos os males, pela integração, interdependência e solidariedade. Como pano de fundo, duas guerras mundiais que não se queriam ver repetidas. Simplesmente, os dirigentes europeus esqueceram-se da dimensão social, enquanto os grandes interesses financeiros souberam tirar partido da abolição de fronteiras e da virtual desaparição de controlo Político.

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O TERRAMOTO Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Os resultados destas últimas eleições europeias, se nalguns países si ficaram por um retrato de família, com poucas surpresas e sem grandes alterações, noutros países saldaram-se por autênticos terramotos. Vejamos uns e outros casos.
Em primeiro lugar, há que recordar que a Ciência, tal como a entendemos, se baseia no princípio do determinismo, em si muito simples: as mesmas causas, nas mesmas circunstâncias, produzem os mesmos efeitos. Sem isto, não se podem explicar (nem prever!) – os acontecimentos. Simples? É não contar com a natureza humana.
Legiões de economistas, sociólogos, politólogos e afins têm-se esfalfado em demonstrar que a atual crise não tem nada em comum com a de 1929 – quando qualquer vulgar cidadão percebe que, se a especulação financeira não tiver freio, o resultado é sempre o mesmo; quando muito, varia em grau. Simplesmente, reconhecer isto é reconhecer a própria inépcia (ou desonestidade), e isso ninguém está disposto a fazer. Preferem, como magistralmente escreveu D. António Ferreira Gomes, antigo Bispo do Porto, “bater penitência no peito dos outros”.
Voltando à Ciência, os geólogos ainda não conseguiram prever os terramotos; quando muito, definem zonas de risco e probabilidades de ocorrência. É natural: é impossível ir ao interior da Terra ver o que lá se passa…
Mas o que se passa na Economia, nas Finanças e na Sociedade em geral é visível e até mensurável; a menos que penetrar nos meandros da Alta Finança seja mais difícil que ir ao centro da Terra – e, ao que parece, aí é que reside o problema…
A falta de controlo Político – porque é disso que se trata – permite essa opacidade; e note-se que escrevi Político com maiúscula, porque político com minúscula até há que sobre…
Há um século atrás, Henry Ford disse que, se o homem comum soubesse como funcionava a Finança, haveria de imediato uma revolução nas ruas; não sendo ele propriamente um homem de esquerda, é pena ter-se esquecido essa lição…
Voltando à previsão dos terramotos, há muito as sondagens em França alertavam para a subida do Front National, mas isso não pareceu preocupar ninguém. Nem mesmo quando a sua carismática líder se referia a coisas que preocupavam toda a gente (menos, claro, os governantes): o desemprego, a recessão, a imigração, a segurança, a corrupção, etc. E o resultado foi, numa perspetiva otimista, um severo castigo para a forma instituída de fazer política; numa perspetiva pessimista, o início de uma nova era.
Não deixa de ser irónico fazer o paralelo da situação em 2014 com a de 1940: nos dois casos, o papel da Alemanha foi fazer emergir a extrema-direita, pela ocupação militar em 1940, pelo peso financeiro em 2014…
Na Europa de Leste, a subida dos partidos de extrema-direita é um fenómeno tão natural como os movimentos tectónicos: quem quase nunca viveu em Democracia tende a não a valorizar, face a questões mais urgentes. Como disse Adlai Stevenson, “se o povo tiver de escolher entre Democracia e sanduíches, decerto escolherá sanduiches”.
Porquê essa quase fatalidade? Voltamos ao princípio base: se a crise de 1929 fez surgir em toda a Europa Central governos autocráticos (eufemismo para ditaduras), com a notável exceção da Checoslováquia, a repetição da situação de descalabro financeiro e o que daí se seguiu desencadeou naturalmente uma onda do extremismo.
Quanto a Portugal, tudo correu como o previsto (uma vitória da Ciência?), com uma pequena réplica do grande terramoto: o fenómeno Marinho e Pinto. Embora em escala mais reduzida, lembra o caso do PRD. O grande trunfo foi a aura de desassombro e coragem moral do candidato, a par de um discurso que nada tem a ver com o desfiar de lugares comuns, a que a classe política nos tem habituado. Também o fato de ter um passado profissional ajuda: advogado ou fabricante de chocolates, aparece como alguém que conhece o País real, o que parece ter peso, em Portugal como na Ucrânia
Os percursores da unidade europeia, e os seus fundadores, sempre pensaram que a União seria a panaceia para todos os males, pela integração, interdependência e solidariedade. Como pano de fundo, duas guerras mundiais que não se queriam ver repetidas. Simplesmente, os dirigentes europeus esqueceram-se da dimensão social, enquanto os grandes interesses financeiros souberam tirar partido da abolição de fronteiras e da virtual desaparição de controlo Político.
E, perante esta falência, nada mais natural que o alargar do leque dos que põem em causa a própria União.
Algo de semelhante se deu há cem anos, ao eclodir da I Guerra Mundial, que este ano se comemora. Os movimentos pacifistas, as associações sindicais, os políticos moderados, as organizações internacionais, tudo isso foi varrido por decisões tomadas no silêncio dos Gabinetes e no segredo das Chancelarias. O nacionalismo triunfante levou à frente, e para a Frente, milhões de homens. Saldo final: vinte milhões de mortos, civis e militares, e a Europa nunca mais foi a mesma.
Relembremos o velho aforismo: quem não aprende com a História, está condenado a repeti-la…
Tomaso de Lampedusa, no seu livro “O Leopardo” (que deu origem a um filme célebre com o mesmo nome) pôs na boca do seu herói uma frase assassina: é preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma.
Desta vez não pode ser assim. O que tem de mudar é importante demais para se limitar a uma cosmética. Temos que tomar o nosso destino nas nossas próprias mãos, exigir que os nossos interesse sejam respeitados, e não limitarmo-nos a delegar quadrienalmente o nosso destino nuns simpáticos personagens que se deixam abafar por interesse obscuros.
A Europa tem de ir em frente; a única questão é o como.
Ou será que queremos repetir a História?

Nuno Santa Clara

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