UM BARCO À DERIVAPor Hélio Bernardo Lopes
Barreiro

Por Jornal Rostos
É muito difícil descortinar um infinitésimo de lógica nos mais recentes acontecimentos que estão a ter lugar no seio do PS. Sobre este tema convém haver clareza da minha parte: sempre tive a sensação de falta de imagem política por parte de António José Seguro. A verdade, porém, é que o PS, sob sua liderança, venceu duas eleições. Tenho como acontecimento certo que voltará a ser o partido mais votado nas próximas eleições legislativas, embora seja muito difícil, com ou sem Seguro, vir a conquistar uma maioria absoluta.
A totalidade dos militantes do PS não tem possibilidade de reconhecer esta realidade elementar: o PS é hoje um partido político sem credibilidade, mas não por causa de António José Seguro. Essa falta de credibilidade deve-se ao acúmulo histórico de cedências à direita e aos grandes interesses. O PS, em Portugal, foi a grande mola de realançamento desses grandes interesses. Embora sem um sentido simplesmente literal, a verdade é que Mário Soares se determinou a meter o socialismo (democrático) na gaveta. E nunca conseguiu, com todo o seu prestígio, uma maioria absoluta.
Foi preciso José Sócrates, já virado para um posicionamento liberal, para que o PS tivesse conseguido, finalmente, uma maioria absoluta. De resto, Manuela Ferreira Leite chegou até a dizer aos seus colegas de partido que José Sócrates havia ocupado o lugar que, por tradição política, sempre fora o do PSD.
Hoje, já de um modo indubitável, e até pelo barco à deriva em que, inacreditavelmente, o PS se está a transformar desde que venceu mais esta eleição, percebe-se que o PS é o tal partido a mais no seio da nossa vida política, tal como em tempos salientou um conhecido politólogo norte-americano. Poderia ser o CDS, absorvido pelo PSD, assim transformado num partido neoliberal. E poderia ser o PSD, mas por via desse partido, de um modo híbrido, passar a ser o PS, como se deu com a governação de José Sócrates. Hoje, percebe-se que esse partido a mais é, de facto, o PS.
Um segundo tema nunca abordado é o da descolonização. Sabe-se hoje, pela obra de Filipe Ribeiro de Menezes sobre Salazar, que este foi abordado por amigos ao redor das independências que os restantes colonizadores europeus estavam a conceder às suas antigas colónias, tendo Salazar respondido que até seguiria por aí, mas que o não fazia porque Portugal não possuía capacidade de exploração em regime neocolonial. Hoje, esta realidade está vista, com Portugal de mão estendida perante alemães, angolanos, chineses, venezuelanos, argelinos, timorenses, moçambicanos, etc.. A célebre entrevista de Rui Machete em Angola vai ficar para a História de Portugal.
Por outro lado, se olharmos hoje a União Europeia, constatamos diversos fracassos: ela é uma realidade sem nexo nem fundamento histórico; criou desigualdades sociais nunca vistas; pôs em causa o valor da democracia aos olhos dos cidadãos; potenciou o regresso de forças nacionalistas; e levou ao passar dos partidos socialistas e social-democratas, com armas e bagagens, para a área dos grandes interesses. A minha opinião é esta e é simples: os seus dirigentes, de um modo muito geral, nunca tiveram grandes valores e muito menos ligados à ideia socialista. Dizem hoje, desdizem amanhã.
Por um acaso, e dado o tema em discussão, assisti ao mais recente Prós e Contras. Nele pude escutar as inacreditáveis – mas corretas – críticas de Ana Gomes a Durão Barroso. Simplesmente, Merkel apoia Juncquer e não Schultz, apesar deste ser alemão. Mas assim não fizeram Ana Gomes nem o PS com Durão Barroso – recordo essas palavras como se tivessem sido ditas ontem –, apoiando Barroso por ser um português... Pode parecer mentira, mas não é.
Este posicionamento ao sabor do vento político predominante, para mais assente numa indefinida ideologia – o socialismo democrático não existe –, é que conduziu à completa perda de credibilidade do atual PS. Com Seguro, com Costa, ou com qualquer outro, o PS nunca mais voltará a conseguir uma maioria absoluta. Pois se até depois de mais uma vitória eleitoral a realidade é a do barco à deriva que já se vê, que credibilidade pode criar um tal partido, para mais sabendo-se que o triunfo neoliberal é hoje uma realidade que até foi apoiada pela generalidade dos partidos ditos do socialismo democrático e da social-democracia? Nenhuma!
Estão os portugueses e Portugal numa desgraça? Claro! Mas isso é a consequência de se ter ido a correr para a Europa, depois para o euro, a seguir para o Tratado Orçamental, etc. E sempre pela mão do PS ou com o seu apoio. E puderam os portugueses, alguma vez, dizer de sua justiça sobre as sucessivas perdas de soberania que nos conduziram à atual desgraça? Nunca! E bateu-se o PS a contrário? Claro que não! Portanto, mais palavras para quê?
Vive-se agora o pânico típico dos que nada sabem prever ou fazer bem. Agora é a ideia anti-democrática do voto obrigatório. Sousa Tavares citou o Brasil – que maravilha! – e a Itália – mas que raio de exemplo! E o resto? Então e os Estados Unidos, o Reino Unido, a Espanha, a França, etc.? No fundo, o que se pretende é esconder o descontentamento reinante contra o neoliberalismo, passando a poder dizer, com ou sem chapeladas – e quão certas elças iriam então ser –, que a população praticaria, com toda a naturalidade, a democracia. Portanto, caro leitor, um êxito: basta tornar o voto obrigatório.
Se eu fosse inglês e aqui chegasse hoje, ao saber que o PS de Seguro tinha vencido as duas últimas eleições mas que queriam pôr o líder na rua, teria muita dificuldade em encontrar um modelo explicativo para este modo de viver a democracia. Mas a explicação é simples: é a democracia à portuguesa, com todos ganharem quando perdem, mas a perderem quando ganham.
Hélio Bernardo Lopes














