ATRIBULAÇÕES DE UM FRANCÊS EM FRANÇAPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Jules Verne, o prolífico escritor francês, que foi um autor de referência de várias gerações (no meu caso, desde o meu avô), e que se pode considerar o pai da ficção científica, escreveu também livros de outro teor, entre os quais as “Atribulações de um chinês na China”, que até deu origem a um filme homónimo.
Se bem que a sua perspectiva da China fosse controversa, o título ficou. E pode aplicar-se ao que hoje se passa em França.
Num País que se avoca como uma referência da Democracia surgem por vezes situações que nos deixam perplexos. E não é caso para menos, uma vez que a nossa elite cultural continua ligada à cultura francesa, embora o mundo anglo-saxónico domine a Economia e a Tecnologia.
Certos movimentos da sociedade francesa parecem-nos difíceis de explicar, e mais ainda porque coisas melindrosas tendem a ser cobertas pelo manto diáfano da fantasia – no caso, por explicações que têm mais de propaganda de que de realidade histórica. Ainda hoje se ensina às criancinhas que Joana d´Arc foi morta pelos ingleses, quando foi presa pelos borguinhões e condenada pelo bispo de Beauvais. Os ingleses, como Pilatos, aproveitaram as questões locais em proveito próprio.
O período da Ocupação da França pelos nazis deu origem a várias questões ainda hoje mal explicadas. Enquanto De Gaule, um general conservador e católico, enveredou pela Resistência, em desfio à ordem estabelecida, François Mitterrand foi trabalhar para Vichy (foi até condecorado com a Francisque) e Georges Marchais, o futuro líder dos comunistas, foi trabalhador voluntário na Alemanha… Diversos mantos diáfanos cobriram esses desvios de juventude.
Estes percursos são uma boa introdução para justificar o título deste artigo, ou porquê das “Atribulações de um francês em França”; como se vê, nada é simples, sobretudo quando as motivações assentam, não em critérios lógicos, mas em sentimentos profundos, mais fáceis de expor no divã do psiquiatra do que no debate político.
O primado da intuição foi talvez melhor teorizado por Friedrich Nietzsche. Não que lhe faltasse cultura; mas, segundo escreveu, preferia, numa manhã de sol, passear numa floresta, onde tinha tido as suas maiores intuições, do que encafuar-se num a biblioteca a ler um livro. Muitos dos seus seguidores seguiram essa via – esquecendo-se de acumular primeiro a indispensável cultura.
Ora, o primado da “intuição” está subadjacente a muitas opções e atitudes individuais e coletivas da Extrema Direita. Uns tantos chavões, alguns “jeux de mots”, e está uma campanha lançada.
O Front National foi beber a essa fonte, apelando desde sempre aos “sentimentos profundos” do Povo Francês. O seu fundador, Jean-Marie Le Pen, tinha uns modos truculentos e uma agressividade que, com o tempo, se revelaram contra producentes. A sua filha, Marine Le Pen, com um ar quase angelical e modos brandos, alargou o eleitorado e o partido chegou agora a um lugar inimaginável há alguns anos. A ponto de fazer tocar campainhas de alarme em todos os setores da política europeia.
Será que o novo modelo, mais “civilizado”, representa uma nova ideologia? Alargar a base de apoio significa normalmente fazer cedências, o que alguns consideram traição. Foi assim que Röhm se opôs a Hitler – mas falhou no jogo de forças, e pagou com a vida.
Que os sentimentos profundos se mantêm, prova-o o próprio pai Le Pen. Há dias, numa entrevista, saiu-se com uma que nem lembrava a Hitler (ou, ainda que pensasse, não dizia). Sobre a questão da imigração, declarou placidamente, frente às câmaras de TV, que o problema podia ser resolvido com o vírus de Ébola…
E o curioso é que esta tirada passou quase desapercebida. Mas atenção: também o Mein Kampf foi considerado mera propaganda política – até ser posto em prática…
Talvez, lá como cá, aos políticos retirados seja concedida uma certa condescendência; deixa-se que digam o que muito bem entenderem, com um misto de carinho e benevolência, uma vez que estão arredados do Poder.
Mas duas questões perturbadoras se põem:
• O que fariam, se estivessem no poder?
• Porque não fizeram, quando estavam no poder?
Portanto, não se trata tanto das “Atribulações de um francês em França”, mas talvez das “Atribulações de um europeu na Europa”.
Nuno Santa Clara














