O que é um aliado?Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Em tempos de crise, a presença de verdadeiros amigos ou, no mínimo, de aliados é fundamental, quando não vital.
Amigos sabemos o que são; aliados é mais complexo. Desde uma simples combinação química a um tratado formal entre estado soberanos, pode ser muita coisa. Fiquemos por uma definição restrita: aliados são os países que connosco estabelecem, em princípio de livre vontade, um tratado com reconhecimento e obrigações recíprocas. Portugal e Inglaterra firmaram, em 1386, o tratado de Windsor, considerado o mais antigo do Mundo. Quanto ao modo como tem funcionado, já lá iremos.
Comemora-se este ano o início da Grande Guerra, como foi chamada, antes de aparecer outra ainda maior, uma vintena de anos depois. Quem se debruçar sobre o início deste conflito, não pode deixar de ficar perplexo: em Agosto de 1914, quase todos os dirigentes europeus e até os chefes militares estavam de férias, já que nada parecia ensombrar, de imediato, a Paz na Europa, depois de várias crises (1908, 1912, 1913, pelo menos). No entanto, a 4 de Setembro, a guerra estava generalizada.
Tem-se dito que uma das causas da Grande Guerra foi o sistema de alianças, que provocou uma reação em cadeia. Quando a Áustria-Hungria atacou a Sérvia, provocou a intervenção da Rússia, tendo a Alemanha e a França apoiado os seus aliados, o que desencadeou a intervenção da Inglaterra… Em resumo, por força dos pactos e tratados, praticamente toda a Europa se viu envolvida num conflito que, a princípio, parecia limitado e local; mais concretamente, circunscrito à península balcânica, mas com contornos semelhantes aos que desencadeariam novas guerras da década de 1990.
Portugal acabou por entrar também na Grande Guerra, por várias razões, uma das quais foi defender as suas Colónias. Não esqueçamos que a I República era fortemente colonialista (se não era imperialista, era por falta de meios); era a lógica da época, e restava-nos segui-la. Aliás, sempre que nos desviámos dos “ventos da História”, tivemos problemas.
Havia razões para temer pelas Colónias. Nas últimas tentativas para evitar o envolvimento da Inglaterra num eventual conflito, a Alemanha voltou à baila com um acordo em que, depois da esperada derrota da França, a Inglaterra receberia algumas colónias francesas em troca da sua neutralidade. Sir Edward Grey, primeiro-ministro inglês, disse então que fazer um acordo com a Alemanha, a expensas da França, seria uma vergonha da qual o bom nome da Inglaterra nunca mais recuperaria.
Fortes e santas palavras, que podiam considerar-se uma declaração de princípios.
Ou não?
Em 1913, a Inglaterra, com o mesmo primeiro-ministro, propôs à Alemanha a partilha do império colonial português, com forma de apaziguamento das ambições alemães em ter também colónias; o tratado deveria ser assinado no Verão de 1914. Não se sabe se o tratado seria mesmo para cumprir, porque a guerra resolveu o assunto de outra forma… Diga-se, de passagem, que Bismarck nunca se preocupara muito com assuntos fora da Europa – e o início da “corrida à África” passara ao lado do “chanceler de ferro”.
Uma tal proposta, feita nas costas do seu mais antigo aliado, deita por terra a as pomposas declarações de Sir Edward Grey acima referidas. Mas, sobretudo, coloca a tal questão de fundo: o que é um aliado? Um parceiro de ocasião, um compagnon de route, ou um amigo sincero?
Se olharmos com atenção para as declarações dos vários políticos sobre o sucessor de Durão Barroso, percebemos talvez melhor o que é um aliado, e as limitações desse conceito, mesmo sem estar em causa qualquer conflito sério. Basta que os interesses nacionais (confessados ou não) estejam em jogo para que estale o verniz.
E, como os interesses nacionais, não sendo eternos, são pelo menos constantes, melhor será não embarcar em declarações solenes.
Ou, segundo as palavras de Jesus Cristo, como conhecer a boa e a má árvore? Pois pelos frutos as conhecereis, disse o Senhor.
Ou, mais pragmaticamente, limitarmo-nos a aplicar o velho conceito de que o inimigo de ontem, é o cliente de hoje e o aliado de amanhã.
Resta saber em que fase estamos, ou seja, se somos inimigo, cliente ou aliado…
Nuno Santa Clara














