As ironias do DestinoPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Os recentes acontecimentos no Iraque fazem lembrar aquele velho ditado alentejano: quem a sebe desmancha, a víbora o pica.
Duas intervenções americanas marcaram a história recente daquele milenar e martirizado país. Desde os tempos da velha Mesopotâmia foi palco de invasões, de formação e extinção de impérios, de surgimento e apagamento de civilizações. Há mais História num punhado de areia das margens do Tigre ou do Eufrates do que em muitas bibliotecas.
Isto sabia o pai Bush, que, ao que parece, leu mais numa semana que o filho em toda a sua vida. Não o sabia, portanto, o filho Bush que, numa declaração que passou a História como um monumento de inépcia, disse que os Estados Unidos iam para o Iraque numa Cruzada – invocando essa palavra maldita para qualquer muçulmano. Depois de assim fornecer ao inimigo a arma ideológica de que ele precisava, continuou, agora numa manifestação edipiana, no sentido de corrigir o que considerava um erro do papá: ocupou todo o Iraque, e criando uma situação que se complica cada vez mais.
A convivência precária entre sunitas, xiitas e curdos torna o Iraque difícil de gerir, e ainda mais porque estes grupos se fixaram em zonas diferentes. Sabiam disso os ingleses, e sabia disso Saddam Hussein, pondo os sunitas a governar o país, com mão de ferro, e contendo os demais.
Estando o Curdistão dividido entre a Turquia, o Irão, a Síria e o Iraque, aí pode haver cooperação: para qualquer deles, tudo, menos a independência do Curdistão (que ainda por cima tem petróleo).
Quanto aos xiitas, são maioritários no sul do Iraque e no vizinho Irão - o arqui-inimigo dos americanos, o tal que quer ter energia nuclear, que tem um regime teocrático (mas não cristão), que fez reféns americanos, etc.
Face à ofensiva sunita, os americanos têm um dilema pela frente: ou deixam correr as coisas, e terão uma situação análoga à do Vietname (uma derrota estratégica), ou têm que encontrar aliados que atuem no terreno (onde eles não querem atuar).
Não se perfilando no horizonte nenhum aliado que se ofereça para essa tarefa (de resultado incerto, sujeita a custos elevados, e com perda de vidas), haverá que buscar noutro lado quem lhes acuda.
Mas há quem esteja interessado. O Irão já declarou solenemente que há que acabar com o terrorismo (leia-se sunita) no vizinho Iraque.
Sendo assim, não seria de admirar que Obama seguisse o conceito de Mao Ze Dong, ou Mao Tse Tung, se preferem (outro antigo inimigo!), segundo o qual “não interessa a cor dos gatos, se servirem para matar ratos”, e recorresse ao gato persa para dar cabo daqueles incómodos roedores.
De forma aberta ou camuflada, essa cooperação nem seria novidade. Lembremos que o formidável e impoluto Ronald Reagan furou o seu próprio bloqueio de vendas ao Irão de modo a obter fundos clandestinos para aplicar na Nicarágua, contornando o Congresso, adverso a mais aventuras duvidosas; foi o célebre caso “Irão-Contras”. Isto enquanto aplicava sanções a quem furasse o bloqueio…
De modo que vamos aguardar cenas dos próximos capítulos. Quem quiser seguir de perto a evolução das coisas deve estar atento à mudança de linguagem dos porta-vozes: vai deixar de ser referido o Eixo da Mal, haverá novos desenvolvimentos na questão do nuclear, as sanções económicas podem ser revistas, etc.
São ironias do Destino (com maiúscula).
E não nos devemos admirar se, dentro de algum tempo, o animal de estimação preferido na América seja o gato persa; até são bonitos, meigos e peludos…
Nuno Santa Clara














