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Quotidianos

RUA AGUIAR Nº 223Por Luísa Barata
Barreiro

Tenho muitas saudades da rua Aguiar tal como ela foi mas o que eu sei (seguríssima!) é que tenho uma saudade sem fim da minha infância.
Mas o Rio, o rio que é quase mar, continua ali, “no lado da praia” ao alcance do olhar. E continua à espera dos mergulhos dos miúdos que o queiram tratar por tu.

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RUA AGUIAR Nº 223 Por Luísa Barata Barreiro

Por Jornal Rostos

Nasci a poucos metros do Rio numa casa grande e muito antiga, com um quintal onde existia uma figueira tão antiga como a casa.
Nasci na mesma cama onde nasceu a minha mãe, a minha madrinha, e os primos delas.
A cama onde eu nasci era da minha bisavó, de que eu me lembro velhinha, doce, protectora e viúva. Tinha o cabelo branco, apanhado num carrapito e vestia sempre de preto.
Em criança, dormia muitas vezes com ela, naquela cama onde eu nasci e onde ela me ensinou a rezar, num desfiar lento de palavras dirigidas a Deus, pedindo-lhe, que protegesse a família e que mantivesse o marido no “Reino da Glória”.
Fascinava-me aquela oração, antes de dormir, de joelhos, na cama ao lado daquela velhinha tão doce e frágil mas também o pilar da família.
A casa grande da rua Aguiar, tinha um quintal atrás onde havia uma grande figueira, um muro e uma porta pintada de vermelho. Do outro lado, o “lado da praia”, era o Rio. Sempre ali, mesmo quando não dávamos por ele, mesmo quando passávamos indiferentes, quando não o víamos, azul e calmo, ou cinzento e zangado, a fazer parte das nossas vidas.

Aprendi a nadar neste Rio, num dos verões quentes da minha infância, numa praia pequena, cheia de gente, quase todos conhecidos e amigos. Tinha 5 anos e foi o meu pai quem me ensinou.
Adorava aqueles domingos na praia. Não me lembro se o Rio era limpo ou poluído, naquele tempo. Lembro-me sim do sabor dos “pirolitos” como chamávamos à água que engolíamos quando mergulhávamos. Sabia a sal porque o nosso Rio é quase mar.
Quando eu era criança não era fácil conseguir que me deixassem brincar no “lado da praia”. Isso era privilégio dos rapazes. O meu primo Manuel e os amigos da rua, tratavam o Rio por tu: pescavam, atiravam-se da muralha, em sítios perigosos, mergulhavam e nadavam contra a corrente.
O meu limite era o quintal. Mas era na Casa que acontecia a minha infância, partilhada com a minha amiga Zézinha. Éramos, eu e ela, as únicas crianças naquela família de pessoas adultas, que nos protegiam e nos ensinavam os valores que tinham herdado de outras gerações.
Passaram muitos anos.

Vi partir todos os que viveram na Casa. Os que me amaram sem limites, que me mimaram, que perdoaram sempre as minhas falhas, os meus erros; os que me ensinaram o abraço; os que sabiam beijar com alegria e com ruído; os que brincavam comigo como se tivessem a minha idade, como se fossem crianças como eu.
Vi partir todos, os avós, os tios, os meus pais, a madrinha.
Também vi morrer a figueira do quintal e até a casa acabou. É apenas mais uma construção degradada e sem vida, numa rua pobre e abandonada.
Poucos se lembrarão das memórias daquele pedaço da comprida Rua Aguiar, dos nomes das pessoas que lá viveram, dos que lá trabalharam, dos que fizeram a sua história.
O sr. Calixto que vendia sapatos; a Cesaltina, encadernadora de livros, mulher do sr. Patacas que era barbeiro; a taberna do César; a papelaria do Chico Cambra, onde vendiam aqueles mata-borrões que os miúdos gostavam de coleccionar; o Café Barreiro do Sr. Santos; a chapelaria do Sr. Gaspar; a farmácia das velhas manas Pimenta; a barbearia do Horta; a mercearia do Zé do Café; a padaria do Espanhol; o homem todo vestido de preto que vendia nas ruas sal e cal que transportava no burro; os operários da Cuf e da C.P., vestidos de ganga azul; os rapazes que jogavam à bola na rua; o homem dos gelados num carro, pintado de branco; os pregões dos que vendiam de porta em porta lambujinhas e camarões pequenos apanhados no rio.

A rua tinha outras histórias: as crianças descalças, os pobres, muito pobres de pedir esmola. Batiam à porta da Casa e esperavam a moeda, o prato de sopa o pão que nunca lhes era negado.
As tenebrosas patrulhas da Guarda Republicana sempre aos pares, que perseguiam os rapazes que jogavam à bola. O barulho assustador dos cascos dos cavalos dos soldados nas pedras da rua, prontos para tudo.
Eram difíceis e muito duros aqueles tempos em que quase tudo nos era proibido, as brincadeiras, os livros e até os sonhos.
Na casa ouvia-se muito secretamente a rádio Moscovo e rádio Portugal livre, falava-se contra a ditadura de Salazar, contra os bufos da Pide, contra o domínio da Igreja Católica. Estas conversas a que eu assistia, tinham um ar de verdadeira conspiração. Avisavam-me muito seriamente que nunca as deveria repetir a ninguém lá fora nem mesmo às colegas do colégio, porque o meu pai ou o avô podiam ser presos. Também não falaria nunca dos livros proibidos pela censura, enterrados no quintal, ao pé da figueira.

Foi numa velha casa da Rua Aguiar, no nº 223 que eu vivi a minha infância. Se aquele pedaço de rua era o meu mundo, a Casa era o meu abrigo, o meu porto seguro.
A rua tal como a conheci, já não existe. A Vila da minha infância e da minha adolescência passou a chamar-se Cidade.
Em Abril vestiu-se de Liberdade e quando foi preciso escolheu, sem medo, o seu caminho.
Orgulho-me de ter nascido aqui e de aqui continuar a viver.
Gosto de ver, todos os dias, pessoas que conheço há anos. Gosto de lhes falar ou apenas de lhes acenar do outro lado da rua. Gosto de me sentir em casa. Gosto de regressar aqui quando viajo. Gosto de ter aqui a minha família e muitos dos meus velhos amigos.
Tenho muitas saudades da rua Aguiar tal como ela foi mas o que eu sei (seguríssima!) é que tenho uma saudade sem fim da minha infância.
Mas o Rio, o rio que é quase mar, continua ali, “no lado da praia” ao alcance do olhar. E continua à espera dos mergulhos dos miúdos que o queiram tratar por tu.

Luísa Barata

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