Querido Barreiro:Por Ricardo Rosado

Por Jornal Rostos
Antes de mais permite-me que me dirija a ti assim, desta forma morna e simples, quase umbilical pela similitude das datas que este ano partilhamos em conjunto - eu pelas três décadas de biologia racional, tu pela tua condição de cidade, qual estatuto de maioridade a que lograste chegar.
E muito mais partilhamos neste ano de datas tão redondas quanto o simbolismo e quadro de valores que encerram em si mesmas: primeiro o 40.º aniversário do 25 de Abril, os 30 anos do Barreiro Cidade e ao longo dos últimos meses os 50 anos dos Jogos Juvenis do Barreiro.
Deixa-me recordar-te, ao estilo “conto da velha infância”, umas coisas que acho que por vezes já não te lembras.
Com uma história farta e longínqua, encontras as tuas primeiras memórias nos idos séculos XIII-XIV, com povoadores que faziam da faina piscatória o seu sustento, explorando sal ou desbravando os campos. A tua carta foral, em 1521, certifica a tua fundação e nos teus braços acolhes o Coina na cintura de Vale de Zebro, onde outrora em fornos saíam estaladiços os biscoitos que confortavam os nossos descobridores nas suas rotas por esse oceano a dentro. Mas também da tua história se fazem os moinhos de maré, as fábricas com que Alfredo da Silva empreendeu os sonhos de tantas famílias, ou ainda a exploração das linhas férreas. A tua herança também é isto, um legado vasto e rico no qual me deleito a divagar. O teu rosto camarro, de menino operário que virou rapaz moderno também é isto: o respeito pela memória.
Mesmo sabendo que somos hoje quase menos 10 mil habitantes, não podemos negar que nas últimas três décadas muitas foram as áreas onde registámos importantes avanços e melhorias: aumentámos substancialmente o nosso poder de compra; hoje formamos mais licenciados, mestres e doutores; apresentamos uma esperança média de vida inexoravelmente superior; entre outros indicadores de índole económica e bem-estar social. Contudo, partilhamos algumas preocupações: temos o flagelo do desemprego que nos atormenta, temos dificuldade em fixar as populações mais jovens e qualificadas com um saldo populacional deficitário, o que nos torna no concelho mais envelhecido da Península de Setúbal; apresentamos um padrão de urbanismo que faz arrepiar os mais arautos seguidores do giz e esquadro, ou ainda um conjunto de promessas que nos adiam permanentemente o futuro.
O meu Barreiro, o dos católicos ou dos comunistas, o dos hipsters ou dos conservadores, o dos liberais ou dos anárquicos, o dos abstencionistas ou dos militantes, o dos funcionários públicos ou dos empresários, o dos idosos ou das crianças é o mesmo, uma terra de gente fraterna e solidária, que assume no seu íntimo os valores da lealdade e confiança enquanto código genético. A herança do Barreiro, como dedilhava Fausto, “lembra-me um sonho lindo, quase acabado, lembra-me um céu aberto, outro fechado”. É o Barreiro transportado nas rotas de Álvaro Velho, no assalto do Capitão Henrique Galvão, na objectiva de Augusto Cabrita ou nas defesas impossíveis do Manuel Bento.
Hoje, mais do que nunca, mais do que um simples orgulho circunstancial pelo percurso realizado, importa partilharmos compromissos futuros, para que ano após ano possamos celebrar com ainda mais regozijo esta data tão particular. Por isso, Barreiro irmão e amigo, hoje brindamos a ti, ao Barreiro com espírito reivindicativo e capaz de nos defender colectivamente do desmantelamento dos principais pilares do estado social, o Barreiro racional e ousado que espelhe no Tejo a sua afirmação na Área Metropolitana de Lisboa, o Barreiro empreendedor e visionário que capte investimento e promova o desenvolvimento económico sustentável, o Barreiro cosmopolita que olhe para as artes e cultura como um traço indispensável à sua identidade, o Barreiro que olha para as suas crianças como mensageiros do futuro e preserva nos idosos o respeito pela memória, o Barreiro plural e participado que se desenvencilha de amarras ideológicas, o Barreiro que não se limita a olhar para o futuro como uma mera inevitabilidade. É este o Barreiro que quero ver crescer, e eu sei que tu também queres e estás preparado.
Ricardo Rosado














