Sic transit gloria mundiPor Nuno Santa Clara
Bareiro

Por Jornal Rostos
Ou seja, numa tradução livre, assim são as glórias deste Mundo. Esta locução latina, muitas vezes invocada como uma exortação ao desprendimento e à renúncia das coisas vãs, parece ter hoje uma nova acuidade.
Isto em dois aspetos.
Um, o criado pela volatilidade da situação financeira (e consequentemente económica) que leva a que o que é hoje verdade amanhã já não é, deixando a perder de vista o dialético mais dogmático e impenitente.
O fato de nenhum economista acertar numa previsão tem para nós, portugueses, uma vantagem: deixa-nos num terreno em que somos especialistas. Não é por acaso que a ocupação mais comum em Portugal é a de treinador de bancada. Assim, a já larga margem da criatividade especulativa encontra um novo campo. Deste modo, não há cientistas, mas bruxos; e se estes, em regra, têm vida curta, isso não diminui a sua credibilidade. Logo, eis uma razão para seguir o apelo ao despreendimento: não vale a pena esforçar-se e insistir, porque algo ou alguém há de surgir…
Como escreveu Fernando Pessoa:
“Melhor é esperar por D. Sebastião,
Quer ele venha, ou não”.
Outro aspeto é o de promover o já proverbial masoquismo nacional, apelando para uma renúncia franciscana, mas sem S. Francisco (e sem o Papa Francisco). Como disse aquele banqueiro, sobre as condições de vida dos portuguese: hão de aguentar, hão de aguentar…
Segundo essa filosofia, pode-se viver sem nada. Só que, quando não se tem nada, não se compra nada. O que parece incompatível com uma economia dita de mercado – em que a nossa é até exemplo para o Mundo, segundo um alto dirigente nacional. Enfim, detalhes.
A menos que, levando ao extremo esta ideia de renúncia e sacrifício, se pretenda voltar ao comunitarismo (nada de confusões!) dos primeiros cristãos. Parafraseando as palavras do Senhor: “renuncia ao teu salário, dá tudo o que tens às Finanças, e acharás um tesouro no Céu”.
Analisados, ou pelo menos aflorados, estes dois aspetos, vamos a um caso concreto da vacuidade e precaridade das coisas deste Mundo.
Na revista VISÃO n.º 1111 de 19 de Junho último (passe a publicidade) vinha uma transcrição de uma afirmação de Ricardo Salgado, datada de 2012: “A gestão conservadora e prudente que caracteriza o Grupo BES tem-nos permitido enfrentar os atuais desafios, mantendo o apoio à empresas e às famílias portuguesas”. Fim de citação.
O autor destas linhas tornou-se ultimamente (ainda) mais mediático com as movimentações à volta dos BES – um folhetim sobre o qual ninguém se ateve (contra o costume!) a escrever as cenas do próximo capítulo.
Não interessa. O importante é o reconhecimento da ideia base: sic transit gloria mundi.
Perante esta situação, e mesmo atendendo a que nada indica que o herói desta história enverede pelo caminho da renúncia, fica-nos uma sensação de algo já conhecido, um dejá vu, como dizem os franceses.
Uma recordação de uns versos de um clássico português, Sá de Miranda:
“Oh coisas vãs, todas mutáveis,
Qual o coração que em vós confia?”
Nuno Santa Clara














