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Quotidianos

O lixo e o LixoPor Nuno Santa Clara

Todos sabemos que quando se constrói algo, se produz entulho, que nalguns casos tem aproveitamento local, e noutras vezes tem de ser removido. Adaptando este conhecimento à construção da sociedade, nos atuais termos, quando se constrói o novo sistema produz-se entulho, que numa primeira fase se chama “desempregados” e na fase seguinte “sem-abrigo”. E, como na construção civil, o que não puder ser aplicado no local tem de ser removido.

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O lixo e o Lixo Por Nuno Santa Clara

Por Jornal Rostos

A Avenida da Liberdade, o antigo Passeio Público do senhor D. Fernando II, está na berra, e não só por cá, mas também lá por fora. Angolanos, brasileiros e chineses acotovelam-se à porta das lojas das grandes marcas de produtos de luxo.
Entrando na onda cosmopolita, dir-se-ia um cruzamento dos Champs Elysées com a Avenue Montaigne, tal é o acumular de nomes sonantes.
Uma tal mais-valia tem que ser estimada e estimulada, o que não parece ter sido o caso até agora, por parte dos poderes públicos.
Ora, esse alheamento foi agora denunciado pelos comerciantes da Avenida da Liberdade e ruas adjacentes, tendo por motivo de reclamação a constatação de dois fatos:
- o acumular do lixo nas ruas;
- a presença de alguns sem abrigo, dormindo embrulhados em trapos, enfiados em caixas de cartão.
Têm decerto razão os comerciantes. Não será a melhor forma de promoção o proliferar de resíduos (ainda que seja típico de Lisboa, e como tal até daria uma cor local), ou a presença incómoda dos subprodutos do neo-liberalismo. De qualquer forma, são rebotalhos – forma eufemística de referir o lixo.
De certo modo, a higienização sanitária e social da zona seria um regresso às origens: no tempo de D. Fernando II, o Passeio Público tinha um gradeamento, e agentes da autoridade para impedir a entrada de pobres, mendigos, pedintes e outros indesejáveis (a expressão “sem-abrigo” ainda não tinha sido inventada).
Só que os motivos invocados para a melhoria do ambiente local têm um certo travo a um complexo de inferioridade, do qual, ao que parece, ainda não nos livrámos.
Ou seja, depreende-se que o acumular do lixo e a presença de sem-abrigo não nos estorvam diretamente; o problema está em quem nos visita – e que constata o nosso atraso em higiene urbana e apoio social. Como se sabe, esses problemas não existem em Angola, no Brasil ou na China, países de origem dos principais compradores.
Esse foi sempre para mim um trauma, desde que me entendo: a necessidade de ter as ruas limpas de lixo e de pedintes, para não impressionar mal os turistas. Na minha inocência infantil, pensava que, afinal, eramos nós quem morava ali, todo o ano, e que o interesse na limpeza e na redução da pobreza era nosso, e não dos turistas.
Fenómeno estranho: num caso talvez patológico de resiliência, continuo a pensar o mesmo…
Enquanto não atingimos esse estado quase beatífico do amor à higiene e à integração social, lá teremos de procurar alhures a justificação das nossas ações.

Todos sabemos que quando se constrói algo, se produz entulho, que nalguns casos tem aproveitamento local, e noutras vezes tem de ser removido. Adaptando este conhecimento à construção da sociedade, nos atuais termos, quando se constrói o novo sistema produz-se entulho, que numa primeira fase se chama “desempregados” e na fase seguinte “sem-abrigo”. E, como na construção civil, o que não puder ser aplicado no local tem de ser removido.
Bem pode o Papa Francisco verberar contra o desemprego: ele decorre do sistema atual.
Em tempos, Estaline, quando lhe foi dito que tivesse cuidado com o Papa, perguntou: “Quantas divisões tem o Papa?”.
Hoje, perguntar-se-ia: “Qual é a cotação do Papa na Standard & Poor´s?”
Enfim, resta-nos administrar os resíduos; para uma melhor gestão, deviam ser divididos em inorgânicos e orgânicos. Entre estes últimos estão os sem-abrigo. Por um último resquício de humanidade, podemos chamar-lhe Lixo, com maiúscula, para não confundir com o lixo comum.
Para a tranquilidade de algumas consciências.

Nuno Santa Clara

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