UM SISTEMA BALOFOPor Abdul Cadre
Barreiro

Por Jornal Rostos
Por muito que palrem os inteligentes do costume, massacrando os ouvidos dos escutantes, explicando o desastre do GES/BES, ninguém ouve nem ninguém diz qual é a essência do problema que afecta a crise financeira mundial, da qual este desastre é apenas um espirro. Ora, a essência é que estamos encurralados num sistema no qual as trocas especulativas financeiras são infinitamente maiores do que as trocas económicas propriamente ditas. O que é bom é juntar notas macho com notas fêmeas e dizer-lhes: crescei e multiplicai-vos. Pra viver a tripa forra e ter os pés lambidos pelos mansos rebanhos dos profissionais do paleio, o que é preciso é ter uma import/export de coisa nenhuma e um viveiro de reprodução de euros, dólares e similares, os quais, a bem da ecologia, nem sequer precisam de ser impressos, podem muito simplesmente ser virtuais.
Este é um sistema onde quem verdadeiramente manda e traz por conta os políticos em quem o povo vota vive muito acima das nossas possibilidades e só deixa que respire quem dedicadamente o serve. E nisto tudo – desiludam-se os crédulos – o povo, por muito que seja invocado, nada conta, ou antes: conta para bater palmas e ser tosquiado.
Apetece-me lembrar aqui o Albino Forjás de Sampaio: «Os mendigos não têm coroa? Que a roubem. E um dia roubá-la-ão». Deixemos isso e façamos um pequeno exercício:
Imaginemos um planeta pequenino onde todo o dinheiro existente totaliza 100 qualquer coisa e está nas mãos de um só banqueiro. O banqueiro, que pode ser um espírito santo ou um espírito pecador, tanto faz, empresta a dez por cento, por exemplo. Chega o produtor de favas contadas e pede-lhe todo aquele dinheiro, aquela pipa de massa, como diria o camarada Veiga – já não me lembro se era Veiga se era Mário, esse do antigo livro vermelho – e não esqueçamos que só havia aquele dinheiro, os tais cem qualquer coisa.
«Sim senhor – diz o banqueiro – mas daqui a um ano vais ter de me devolver o capital e os juros: CENTO E DEZ».
Pergunto eu, na minha ignorância, como é que o produtor de favas contadas vai dar ao banqueiro 110 se todo o dinheiro que existe totaliza apenas 100?
Eis explicada a razão de um banqueiro poder viver acima das nossas possibilidades e nós não. O resto é conversa de economista para entreter ouvidos pacientes e justificar a si próprio as tretas que aprendeu nas sebentas e fotocópias do seu contentamento.
ABDUL CADRE














