1984 – 2014: do grande irmão à falência moral das sociedades modernasPor Ricardo Rosado
Barreiro

Por Jornal Rostos
1984, mil novecentos e oitenta e quatro, relata um romance clássico do autor Eric Arthur Blair, celebrizado enquanto George Orwell, seu pseudónimo. A obra tenta descrever o quotidiano de um regime político totalitário na sua filosofia e repressivo por natureza. Numa prosa fluente o seu autor tenta mostrar-nos como uma oligarquia colectiva é capaz de reprimir todos quantos se oponham à mesma. A história centra-se em Winston Smith, um homem com uma vida aparentemente banal e que concentra a tarefa de disseminar a propaganda do regime mediante a falsificação de documentos públicos e literatura difusa. Desiludido com a sua existência insignificante e fugaz, Smith desencadeia uma rebelião contra o sistema. A obra torna-se referência de relevo ao nível da literatura internacional pelo retrato que consegue traçar acerca da crescente invasão sobre os direitos dos cidadãos. “O grande irmão está de olho em você” foi uma frase celebrizada, porventura assente na personificação metafórica do poder absoluto e das sociedades modernas, em parte, e por outro lado, inspirada na visão do autor sobre os totalitarismos de vária índole que imperavam no espaço europeu e asiático na época. 1984 foi um dos romances mais influentes do século XX, marcando o imaginário social de uma época em que o mundo saíra abalado por duas guerras mundiais, e a previsão de um terceiro conflito global a todos aterrorizava.
1984 foi um ano bissexto marcado indelevelmente pela realização dos Jogos Olímpicos em Los Angeles que consagraram com a medalha de ouro Carlos Lopes na maratona, pelo lançamento do Macintosh pela Apple, ou ainda pelas primeiras reflexões embrionárias da adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia - numa retórica reivindicativa, Mário Soares afirmava: “se os europeus não nos quiserem ajudar teremos que nos virar para os Estados Unidos”. O mundo assistia à assinatura do acordo entre o Reino Unido e a China para a transição do território de Hong Kong e Reagan era reeleito. A direita em França manifesta-se pela escola livre.
Na obra de Orwell o estado controlava o pensamento dos cidadãos, entre muitos outros meios pela manipulação da língua. Publicada em 1949, poucos meses antes da morte do seu autor, esta assustadora distopia datada de forma arbitrária num futuro próximo experimentaria um sucesso tremendo. Muitos leram 1984 como uma crítica devastadora aos belicosos totalitarismos fascistas na Europa, outros como uma fantasia de horrores contra o comunismo da hoje extinta União Soviética.
Por outro lado, e em território nacional, 1984 fica ainda marcado de forma significativa pela discussão na Assembleia da República da despenalização do abordo. Foi o ano em que rebenta o escândalo da Dona Branca – banqueira do povo; o ano no qual se comemora o décimo aniversário sobre a revolução de Abril e em que são criados os serviços secretos em Portugal. Em 1984, Otelo Saraiva de Carvalho é preso e morre o ciclista Joaquim Agostinho. A economia cavalga sobre uma inflação média de 29%, a maior desde 1974, e um relatório oficial reconhece a existência de salários em atraso em cerca de 100 mil trabalhadores. É ainda criado o IVA, um imposto directo sobre o consumo.
Entronizada no restrito panteão dos grandes clássicos modernos, citada por leitores de todas as idades, desde a esquerda do proletariado à direita burguesa, com maior ou menor taxa de alfabetização, a obra de Orwell ainda hoje se impõe, lamentavelmente, como uma importante e oportuna reflexão ficcional sobre os excessos delirantes de qualquer forma de poder incontestado. Senão vejamos:
Em 2014 observamos a tensão separatista nos territórios ucranianos, a insegurança no tráfego aéreo, a difusão de uma cultura belicista que se alastra desde a faixa de Gaza ao sudeste asiático, a dicotomia brasileira entre fervorosos adeptos de futebol e cidadãos comuns e anónimos que exigem melhores condições sanitárias, de acesso à educação e habitações dignas. O presente ano fica igualmente marcado pela revisitação do vírus do Ébola no léxico farmacológico, pela eleição do ex-primeiro ministro luxemburguês Jean Claude Juncker para liderar a Comissão Europeia e ainda pelo assinalar do centenário da primeira grande guerra.
Em Portugal, a execução orçamental insiste em derrapar, o défice e o desemprego são camuflados sobre uma austeridade hesitante, o Tribunal Constitucional insiste nos primados fundamentais que visam garantir os direitos dos cidadãos e o principal partido da oposição recreia-se em interpretações estatutárias enquanto se discutem lideranças. Entretanto, e após o tilintar dos cálices de espumante que brindam à saída da Troika, é lançado mais um fascículo da saga “falência do sistema económico e financeiro” com o capítulo Espírito Santo a trazer para a ribalta da intriga opinativa as mais insuspeitas entidades reguladoras e altas esferas do xadrez político, económico e empresarial.
A páginas tantas, apraz-me citar: “trabalho físico pesado, cuidados com a casa e os filhos, disputas menores com os vizinhos, filmes, futebol, cerveja, e, antes de mais nada, jogos de azar, preenchiam o horizonte de suas mentes”. Como é assustadoramente gritante a semelhança com a nossa sociedade actual. O romance de Orwell vai muito para além de um tratado político. A prosa contínua em que nos deleitamos apresenta-se como uma visão pessimista do progresso tecnológico, oferecendo a ilusão de felicidade e alienando a liberdade dos prazeres individuais. Sem grandes subterfúgios, o escritor coloca-nos perante a reflexão sobre os limites do desejo perante o poder, a substância intrínseca da condição humana perante a subserviência e direitos fundamentais, o âmbito da educação e literacia política como instinto básico de sobrevivência social, mas sobretudo o questionar entre liberdade de escolha e ilusão em função de falsas promessas de segurança.
Ricardo Rosado
Post-Scriptum: o autor nasceu em 1984














