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Quotidianos

SER JOVEM EM DIAS DE CRISEPor Ricardo Bernardes
Montijo

É este o momento que vivemos. Um momento em que se diz a milhares de jovens – que são, de longe, a geração mais qualificada de Portugal – que o esforço que fizeram foi em vão, que não há lugar para eles no seu próprio país.

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SER JOVEM EM DIAS DE CRISE Por Ricardo Bernardes Montijo

Por Jornal Rostos

Esta semana assinala-se o dia internacional da juventude num contexto económico, político e social que, de tão complexo, faz revestir a efeméride de um maior significado.

Com o eclodir da crise financeira em que vivemos, tudo foi posto em causa para os jovens: Portugal tem atualmente uma elevadíssima taxa de desemprego entre a população jovem – incluindo licenciados e outros quadros qualificados – e os que conseguem a oportunidade de um primeiro emprego, estão condenados à precarização de um mercado ultraflexível, onde os falsos recibos verdes, a rotação dos contratos a prazo ou a termo e os ordenados baixos, mais do que já não surpreenderem ninguém, são vistos como uma benesse face à alternativa existente – o desemprego.

Assim, quem não quiser continuar a depender dos pais e adiar eternamente o seu futuro e a sua emancipação, tem uma alternativa: emigrar. Incentivada ao mais alto nível por dirigentes governamentais, a emigração jovem é hoje uma realidade que só tem paralelo nos anos 60 do século passado quando, como é sabido, além da miséria das camadas populares, o país vivia oprimido por um regime autoritário e por uma guerra injusta, que chamava às suas fileiras todos jovens do sexo masculino que não lhe conseguissem escapar.

A História tem ironias, mas a mais angustiante de todas elas, é quando o futuro se apresenta como um regresso ao passado, um recuar no tempo, para se reviverem problemas já vividos e dificuldades já experimentadas, porventura com menos justificação do que no momento em que primeiramente existiram. É este o momento que vivemos. Um momento em que se diz a milhares de jovens – que são, de longe, a geração mais qualificada de Portugal – que o esforço que fizeram foi em vão, que não há lugar para eles no seu próprio país. No fundo, este é o momento em que uma comunidade assume, como um todo, que quer desaproveitar o investimento que fez na qualificação dos seus – um investimento pago, como é sabido, pelos impostos dos cidadãos – e que não só permite, como encara com naturalidade que sejam outros países a tirar proveito desse investimento.

Hoje, ser jovem, não é uma fase de idealismo e de confiança no futuro. É uma fase de angústia pelo que aí vem, de apreensão e mesmo de dúvida pelo sentido dos esforços feitos. É por isso que, mais do que nunca, faz sentido assinalarmos esta data. Não vamos baixar os braços!

Ricardo Bernardes
Docente da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa
Coordenador da JS do Montijo e membro do secretariado da federação distrital de setúbal da JS

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