39,99€Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
É um fenómeno mais que conhecido em todos os espaços comerciais: um artigo nunca custa 40 euros, custa 39,99€. Poderá parecer uma questão até idiota, mas a verdade é que funciona. Em vez da palavra “quarenta”, surge em primeiro lugar a palavra “trinta” – e isso faz a diferença.
Será isto uma prova da imaturidade dos consumidores? Talvez, mas o sistema é eficaz, e a nível mundial. 39,99 euros, 59,99 dólares ou 29,99 libras, tanto faz: o importante é que a primeira palavra seja a da dezena, ou centena, ou qualquer outra classe aritmética mais baixa.
O curioso é que esta técnica passou para a política (não confundir com a Política). Também nada de novo, uma vez que, reconhecidamente, se “vendem” candidatos a Deputado ou a Presidente pela técnica do detergente. Há casos célebres de contratações de gurus da publicidade para campanhas eleitorais.
Sendo assim, as regras do marketing seriam tão gerais, universais e deterministas como a lei de gravidade. Tal como um objeto é implacavelmente atraído para o centro da Terra, na razão direta da sua massa e inversa do quadrado da distância (assim o disse Newton, há três séculos), um candidato será de certeza eleito, na razão direta da “massa” empregue na campanha e inversa do conhecimento real que os eleitores têm do candidato.
Na mesma linha de raciocínio, a regra da dezena, ou centena, inferior também se aplica. Assistimos agora a uma explicação do Governo sobre a remuneração dos médicos contratados cubanos, face a uma acusação da Ordem dos Médicos, em como estes receberiam o triplo dos médicos portugueses (supõe-se que em igualdade de circunstâncias).
Face aos números dados pelo Ministério da Saúde, temos que concluir que não era o triplo: era apenas mais do dobro. Temos aqui que fazer uma extrapolação, das dezenas e centenas atrás referidas, para o triplo versus dobro. Mas a doutrina é a mesma, relegando-se o odioso triplo para um aceitável dobro: na melhor linha de um centro comercial de sucesso.
Esclarecida esta questão, outra se levanta: porquê contratar fora o que se poderia ter cá dentro? Já estamos habituados aos novos parâmetros da emigração, em que os iletrados candidatos a maçon nos chantiers de França foram substituídos por altamente qualificados especialistas de várias áreas. Mas, aparentemente, o negócio de import-export de médicos parece ser deficitário para Portugal.
Na nossa ignorância, deixemos aos especialistas o debate desta questão.
Mas, se combinarmos essa nova tendência para a emigração qualificada com os recentes cortes no ensino superior, deparamo-nos com um aparente paradoxo: como iremos exportar os nossos topos de gama, que hoje rivalizam com os sapatos ou os painéis solares nacionais na nossa balança de pagamentos, fazendo aos cortes na sua formação? Ainda por cima, na altura em que os russos nos roem a corda com o embargo das importações?
Claro que há uma saída. E lógica, como tudo o que devemos fazer.
Uma vez que os nossos licenciados estão destinados a procurar saída noutras paragens, há que assumir o fato, e agir em conformidade.
Consequentemente, os cortes no ensino superior deveriam ser contrabalançados por fundos destinados ao fomento da exportação – essa que tem vindo, paulatinamente, a subir, e que é prova da justeza da nossa política.
E assim teríamos uma solução lógica e equilibrada, na qual a contratação de quadros no exterior até poderia ser compreendida. Era só uma questão de import-export, passível e possível de quantificação.
Nuno Santa Clara














