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Quotidianos

Costa de Dezembro de 2010 ou Costa de Maio de 2014?Por Alcídio Torres
Montijo

O PS não precisava deste período de “nojo”, os milhares de desempregados, os 90% de pensionistas com pensões abaixo dos 500 euros, os milhares de homens e mulheres obrigados a emigrar, ou os jovens sem perspectivas de futuro não precisavam desta disputa interna no PS.

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Costa de Dezembro de 2010 ou Costa de Maio de 2014? Por Alcídio Torres Montijo

Por Jornal Rostos

No dia 2/12/2010, à margem da inauguração da reabilitada Fonte Luminosa da Praça do Império, António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, afirmava aos jornalistas, entre outras coisas, o seguinte: “ Não vejo a necessidade de o primeiro-ministro, José Sócrates, ser afastado do cargo e está absolutamente fora de causa vir a assumir essa função”.
Questionado pelos jornalistas por que não havia de assumir a função de chefe do Governo, António Costa foi peremptório: "em primeiro lugar, não é necessário substituir o chefe do Governo. Em segundo lugar, estou impossibilitado de o fazer porque tenho um compromisso com a cidade, por isso está absolutamente fora de causa abandonar a Câmara de Lisboa para exercer funções governamentais”.
A afirmação e a decisão do presidente da Câmara Municipal de Lisboa de respeitar a palavra dada aos lisboetas foi correcta por reafirmar, na prática, o respeito pelos princípios da integridade, da moralidade,da clareza de posições e decoro da autoridade. Ao se predispor a abandonar o cargo de presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Antonio Costa revelou uma faceta que não pode ser aceite por quem defende os princípios da honestidade, da verdade e da coerência.
Na verdade, assumir os compromissos com quem nos elegeu é um problema ético intemporal de enorme importância estratégica e estrutural para a saúde e a credibilidade de qualquer democracia.
António José Seguro foi apoucado pelos comentadores de serviço e até pelo António Costa quando referiu, no último debate entre ambos, que, enquanto ele percorria o país, o presidente da Câmara de Lisboa estava à janela do município. E, na verdade, Costa espreitava da janela do município a oportunidade para pôr marcha o que havia negado em 2/12/2010.
Quando António José Seguro põe em causa estes comportamentos de Costa e começa a falar em traição e deslealdade é, desde logo, acusado de fazer ataques de carácter. Em qualquer país da OCDE com sistemas nacionais de ética pública, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa nunca podia ser candidato a primeiro-ministro, pela simples razão de que mentiu aos cidadãos de Lisboa ao abandonar o compromisso ético que com eles havia assumido.
Pelo relato anterior, constata-se que António Costa convive mal com a palavra de honra e com a verdade. Vejamos só mais dois exemplos, de um discurso pouco coerente e na continuidade das afirmações anteriores aos jornalistas.
António Costa acusa injustamente a actual direção do PS de “não ter sido capaz de impor um projeto alternativo ao país” mas, em simultâneo, explica que “não é possível, no seu caso, apresentar propostas muito concretas (um projecto alternativo) porque ainda há um ano pela frente até às legislativas (e até há a crise da Ucrânia) muita coisa pode mudar”. Ou seja, no caso de António José Seguro, era possível apresentar um projecto alternativo com três anos de antecedência mas, no seu caso, isso já não é possível devido à incerteza dos tempos. Em que ficamos?
António Costa acusa ainda António José Seguro de “assumir a explicação que a direita deu” sobre a crise económica e financeira. Ora, quem esteve atento ao debate político dos últimos três anos, sabe que o líder do PS denunciou e rejeitou os argumentos austeritários da direita, propôs, desde a primeira hora, uma política de crescimento económico, opondo-se aos cortes e à política de empobrecimento de Pedro Passos Coelho. Mais, viajou pela Europa para falar com líderes de diversos partidos socialistas europeus e acusou o governo da direita de se ajoelhar perante a troika sem uma estratégia concertada com outros países vitimas da armadilha da dívida.
Se somarmos estes três casos referidos, verificamos que há um traço comum no comportamento político de António Costa: “ procura vender a sua falta de coerência e de verdade aos que, com António José Seguro, sempre procurou atacar a governação de direita e as suas políticas”.
Talvez seja por falta dessa coerência, dessa verdade e desse rigor que o presidente da Câmara Municipal de Lisboa veio à liça disputar a liderança do PS no momento em que o ataque à direita mais precisava de voluntários para a combater.
O PS não precisava deste período de “nojo”, os milhares de desempregados, os 90% de pensionistas com pensões abaixo dos 500 euros, os milhares de homens e mulheres obrigados a emigrar, ou os jovens sem perspectivas de futuro não precisavam desta disputa interna no PS.
Será que um PS pós 28 de Setembro, e dividido ao meio, será mais vitorioso e mobilizador que o PS deixado por António José Seguro depois das Eleições Europeias de 25 de Maio?
A resposta a esta pergunta não pode deixar de ser profundamente perturbadora!
Como perturbadora é a mudança do comportamento ético de António Costa.

Alcídio Torres

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