A loja dos dedosPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Conhecemos bem aquele velho aforismo português, segundo o qual “vão-se os anéis, fiquem os dedos”.
Em tempos de crise, esta amostra de sabedoria popular tem uma dramática atualidade; parece mesmo que se tornou uma espécie de programa político e económico, uma vez que o tema é sempre o mesmo: emagrecer o Estado; fazer economias (de e em quê?); cortar despesas; reduzir estruturas; concentrar serviços (à custa de despedimentos); evitar novas contratações; adiar obras necessárias; e etc., muitos etc.
Pois nesta aguda conjuntura, não sendo de esperar aumentos nas receitas individuais, não sendo já possível cortar nas despesas (a não ser pela receita de Mahatma Gandhi, ou seja, através de um jejum rigoroso), resta a tal hipótese de vender os anéis – para conservar os dedos.
Nunca gostei de joias, e com tal nunca entesourei objetos de metal precioso, pelo que me está vedado esse recurso.
Mas há quem o tenha feito; está na mente de todos nós a imagem daquelas minhotas, carregadas de ouro, que elas ostentam nas formosas e famosas romarias daquelas bandas. Decerto haverá ali por onde recorrer numa aflição. Mas trata-se de objetos cujo valor artístico, e sobretudo sentimental, ultrapassa em muito o valor intrínseco, pelo que reduzi-los a ouro a peso seria um crime contra o nosso património artístico.
Pois sim. Mas a necessidade a muito obriga, e a proliferação de casas que compram ouro, discretamente, com dinheiro vivo, é notória. E lá se vão as joias da família, por muito que isso custe. E dando de barato que os preços são honestos.
Porém, há dias constatei o que me parecia até agora impossível. Uma casa de compra de ouro tinha fechado, assim como uma vulgar casa de modas, um café pouco frequentado ou mesmo uma farmácia mal localizada.
Pois quê! Então já não há ouro?
Se bem pensarmos, é natural que vá escasseando. E que vá desaparecendo, numa espiral descendente, tal como a do ouro que se sumiu no século XVIII, quando o precioso metal trazido do Brasil nas naus do senhor D. João V se media por toneladas, e não por gramas, como agora.
Não havendo minas, não havendo emprego, não havendo remessas de garimpeiros de algum El Dorado, enfim não havendo já quem que vá arrancar “o vil metal, que o vulgo adora” (como disse o poeta), é natural que este desapareça, e consequentemente as lojas da especialidade fechem.
E assim voltando ao velho aforismo, foram-se os anéis, mas ficaram os dedos.
Até quando?
A continuar o “panorama da atual conjuntura” restará empenhar os dedos.
E teremos então “Lojas de Dedos”, em que estes se vendem ou alugam ao sabor de uma cotação fixada sabe-se lá por quem… Talvez por aqueles que nos atribuem os “ratings”, que determinam os juros das nossas dívidas, que arruínam a nossa economia e que nos obrigaram a vender os anéis, para conservar os dedos.
Com os dedos empenhados, nem poderemos apontar a dedo os culpados de tudo isto; nem mesmo fazer aquele gesto com um dedo, decerto obsceno, mas que exprime, melhor que muitas palavras, o nosso desespero e impotência.
Nuno Santa Clara














