A VERDADEIRA QUESTÃO DE HOJE É OUTRAPor Hélio Bernardo Lopes
Barreiro

Por Jornal Rostos
Num certo sentido, foi com graça que acompanhei a terrível luta de muitos dos nossos políticos contra a presença dos bustos de Óscar Carmona, Francisco Craveiro Lopes e Américo Tomás nos corredores da Assembleia da República, no âmbito de uma exposição que ali está a ter lugar sobre os portugueses que desempenharam o alto cargo de Presidente da República.
Achei graça a esta luta, porque a mesma operou-se completamente à revelia das preocupações dos portugueses dos nossos dias. Indubitavelmente, perante a descrença, já profunda, dos portugueses na generalidade das instituições – o Tribunal Constitucional é a exceção –, muitos dos nossos políticos determinaram-se a operar uma ligeira e engraçada guerrinha ao redor da presença daqueles três nossos concidadãos na referida exposição. Erraram, porque terão esquecido o já histórico concurso televisivo, O MAIOR PORTUGUÊS DE SEMPRE.
Se a Revolução de 25 de Abril já se deu há quarenta anos, com uns bons milhões de portugueses completamente fora da sua vivência mínima, a verdade é que a mesma também já quase morreu ao nível dos bons e humanistas sonhos que a quase todos trouxe, por via desta realidade simples: naquele tempo sabia-se que o dia seguinte seria melhor; hoje, percebe-se que o dia de amanhã será pior.
A cada dia que passa, desmoronam-se mais o Serviço Nacional de Saúde, o Sistema de Justiça, o Sistema Educativo Público, a qualidade já atingida pela nossa Investigação Científica, a Segurança Social Pública, a pouquíssima capacidade existente para um combate eficaz à corrupção e ao grande crime organizado e a objetiva falta de vontade em dignificar as pessoas e as suas famílias. Nunca tão poucos tiveram tanto e tão imensamente mais que a restante esmagadora maioria dos portugueses. Nunca a bola-nossa-de-cada-dia esteve tão omnipresente na nossa grande comunicação social.
Ao mesmo tempo, lá se vai sabendo que um quinto dos idosos no Alentejo afirma não ter dinheiro para se alimentar. E, tal como pude já escrever por vezes diversas, e em circunstâncias distintas, o envelhecimento da população, sem os cuidados adequados, é um dos problemas mais graves do país. Uma realidade recentemente surgida no Relatório da Primavera 2014, sobre a saúde dos portugueses. De igual modo, sabe-se agora que para a população com mais de setenta e cinco anos a questão da difícil autonomia e necessidade de ajuda é muito grave, com pessoas em casa há muitos anos, com frequência grande em edifícios antigos ou sem elevador.
Estas duras realidades, bem como a miríade de outras que cada um de nós conhece, é que é a realidade que importa às pessoas. Nenhum destes milhões de portugueses, dos mais idosos aos mais novos, dedica um ínfimo do seu tempo ao que se passou na II República. Eles têm o direito de exigir dos eleitos que estes resolvam os seus problemas mais essenciais. E têm o direito de exigir aos detentores de soberania, de um modo muito geral, que cumpram as suas funções com dedicação, eficácia e espírito de justiça. Infelizmente, realidades rapidamente em perda. E têm também o dever de escolher os políticos com atenção, porque uma revolução tem o dever de se defender. Em todo o caso, ninguém liga, o que quer que seja, à presença de Carmona, Craveiro e Tomás na tal exposição. A verdadeira questão de hoje é outra.
Hélio Bernardo Lopes














