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Quotidianos

Ver para crerPor Nuno Santa Clara
Barreiro

De modo que só nos resta ter fé. Não a Fé das Virtudes Teologais, mas aquela fezada em que tudo correrá bem. E, a propósito destas Virtudes, não esqueçamos que a Esperança anda esquecida, e a Caridade, a julgar pelos exemplos vindos de cima, ainda mais ausente…

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Ver para crer Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Os desconfiados gostam muito desta expressão popular. E ninguém lhes leve a mal. Nem mesmo as mais ilustres figuras estão isentas de ceticismo, e tal não lhes diminui o estatuto.
Isso mesmo nos ensina a Bíblia, quando narra o sucedido com o Apóstolo S. Tomé. Segundo o texto sagrado, tendo o Senhor aparecido aos seus discípulos, após a Sua morte, S. Tomé não estava presente. Tanto bastou para que pusesse em causa a aparição, quando os outros Apóstolos a narraram. E mais disse que só acreditava quando O visse.
Na aparição seguinte, o Senhor sanou todas as dúvidas do cético S. Tomé. E nem por ter patenteado essa incredulidade ele deixou de ser Apóstolo.
Simplesmente, foi-lhe dito que acreditara, por ter visto; mas mais felizes seriam aqueles que acreditassem sem, ver. Memorável e Paternal reprimenda.
Claro que este caso desde sempre fez correr muita tinta, e deu aso a muita discussão filosófica e teológica; até têm sido feitas análises psicológicas a S. Tomé, como por exemplo explicando as raízes da sua descrença pelo despeito (porquê a aparição quando ele não estava?). Deixemos essas discussões aos escolásticos e outros eruditos, e vamos para tempos mais atuais.
Devemos, pois acreditar sem ver? Segundo algumas grandes figuras da nossa praça, assim deveria ser. Não vemos nada do que nos prometeram; não vemos nada do que nos dizem estar a acontecer; mas, mesmo assim, deveríamos acreditar.
É uma questão de fé.
Não há razão para um sorriso desdenhoso. Quantas vezes acreditamos – e aparentemente sem esforço - em algo que parece contradizer o que está patente perante os nossos olhos?
Não se trata de “milagres” da publicidade ou de truques de algum mágico, dos muitos que por aí proliferam.
Trata-se de algo mais corriqueiro. Tão frequente e natural, que nem damos por isso.
O exemplo clássico é um jogo de futebol, gravado em direto e passado em diferido, quando visto em pormenor na televisão, com várias passagens e repetições, com zoom e com câmara lenta. Aparentemente, uma visualização repetida não deixaria dúvidas. Aliás, esse mesmo método é usado na investigação de crimes, com bons resultados.
Então, porque é que, no rescaldo de um jogo de futebol, não é possível chegar a consenso sobre se o jogador A estava fora de jogo, ou se o jogador B fez penalti? Não estão lá as imagens, várias vezes repetidas, para esclarecer?
A nossa experiência diz-nos, de modo desconcertante, que não. Semanas inteiras de discussão, amizades comprometidas, altercações, cenas de agressão, desacordos inultrapassáveis, eis o que resulta daquelas imagens que deveriam clarificar tudo.
Porque, quando toca a sentimentos, não acreditamos no que vemos: acreditamos no que queremos (ou cremos). E, como, no topo das nossas preferências, está uma opção política ou clubística (uma e outra com forte componente emocional), fácil será perceber que aquilo em que acreditamos está de acordo com o que desejamos – e não com aquilo que o mais elementar bom senso nos recomendaria que acreditássemos.

Disso sabem, se não os nossos governantes, pelo menos aqueles que os aconselham, a troco de despesas não inscritas nas despesas ordinárias do Orçamento do Estado. O que tem a sua lógica, uma vez que não há concursos públicos nem rubricas orçamentais para gurus ou bruxos.
De modo que só nos resta ter fé. Não a Fé das Virtudes Teologais, mas aquela fezada em que tudo correrá bem. E, a propósito destas Virtudes, não esqueçamos que a Esperança anda esquecida, e a Caridade, a julgar pelos exemplos vindos de cima, ainda mais ausente…
Não é preciso, portanto, ver para crer; o que é preciso é fé – muita fé, já que o que se vê… é o que se vê!

Nuno Santa Clara

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