O rapaz e o loboPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Todos conhecemos aquela fábula do rapaz e do lobo. Ainda hoje é leitura obrigatória nas escolas, e há boa razão para isso. É que a fábula tem inúmeras e atuais aplicações, como veremos.
Para os mais esquecidos, relembremos. O nosso rapazito, espírito travesso, enquanto guardava as ovelhas, lembrou-se de gritar “Acudam, que está aqui um lobo”. Acudiu a aldeia em peso, só para constatar que não havia lobo nenhum, e que o pastorinho ria a bom rir com a facécia. Mas o pior foi que repetiu várias vezes a brincadeira de mau gosto, até que, na aldeia, deixaram de ligar aos seus pedidos de socorro.
Foi então que veio o lobo, desta vez a sério, e lá foram as ovelhas, por mais que o miúdo gritasse a pedir ajuda. Ficou o moral da história: não brinques com coisas sérias.
Passemos ao Mundo atual, em que há poucos pastorinhos de ovelhas, mas muitos condutores de negócios públicos, que os conduzem pelo método do rebanho: nós é que sabemos, e portanto nós gritaremos ao lobo quando acharmos conveniente (entre outras decisões igualmente importantes).
Já houve duas Guerras do Golfo. A primeira, de Bush Pai, foi feita com o apoio de uma larga aliança – tão larga que até o Governo Português da época considerou mesmo uma participação ativa, sem saber se isso lhe traria votos. A segunda guerra, a de Bush Filho, teve poucos apoiantes, além do indefetível Blair e de alguns países europeus de Leste, defensores da Democracia com zelo de neófitos. Só que a primeira teve apoios, porque estavam em causa alguns princípios soberanos; e a segunda não teve, porque a célebre questão das armas químicas não convenceu ninguém (além dos rebanhos internos). E o resultado viu-se, com o desmontar, na praça pública, da ficção do arsenal de destruição maciça, não tendo esta guerra outro resultado que não destabilizar completamente a região e envenenar (literalmente) os militares que tomaram parte na ação com um “caldinho” de vacinas e antídotos, justificado pela ameaça inexistente.
Costuma dizer-se que a culpa morre solteira. Neste caso, também ficou para tia – mas deixou uma pesada herança. E, entre os tarecos da herança, ficou algo de muito importante: botas no terreno, nunca mais! Lá drones e mísseis, ainda vá; mas preciosas vidas americanas ou inglesas, nem pensar.
Aliás, este complexo é recorrente. É um sentimento idêntico ao que surgiu após o fiasco do Vietname; enquanto durou a memória, o sentimento foi o mesmo: botas, nunca mais! Mas a memória dos Homens é curta, e o otimismo vence sempre. Até a Guerra dos Cem anos deveria ter acabado antes do Natal, e foi o que se viu…
O problema é que agora, naquela região berço da nossa cultura, os acontecimentos parecem ultrapassar a imaginação mais delirante. Massacres religiosos, limpezas étnicas, violações sistemáticas, casamentos forçados, mutilações premeditadas, degolação de reféns, enfim, algo que se pensava ter sido erradicado da face da Terra aparece em direto na Televisão.
E, ao que parece, não há fim à vista. Nem surge alguém interessado em colocar as botas naquele vespeiro – nem mesmo com a promessa de petróleo.
De modo que temos aqui um belo exemplo de como não se deve gritar ao lobo, sem que este esteja por perto. Não fora a guerra de Bush Filho, com o seu cortejo de suspeições (para sermos brandos) e poderia ser encarada agora uma posição mais musculada, mesmo com botas no terreno – e até se poderia esperar que com largo apoio da comunidade internacional. Mas, depois do negócio de “sangue por petróleo”, que ainda por cima correu mal, é difícil vender uma política de intervenção mais direta, mesmo a rebanhos disciplinados.
E assim chegamos a esta situação: quando não havia razões sólidas para entrar em ação, não houve reticências sobre o emprego da força; quando parece justificar-se o emprego da força, tudo são reticências para o seu emprego.
Moral da estória: nada como a sabedoria antiga, se houver um mínimo de inteligência para a adaptar a cada caso. E, porque o julgamento da História não admite recurso, caberá aos que gritaram ao lobo, sem que este rondasse o rebanho, a responsabilidade da falta de apoio da aldeia (neste caso, a Aldeia Global) no combate ao predador impenitente agora revelado.
Nuno Santa Clara














