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Quotidianos

A Maria da FontePor Nuno Santa Clara
Barreiro

O que a revolução da Maria da Fonte não conseguiu em 1846 (o afastamento de Costa Cabral), conseguiu em 1851 o movimento militar que levaria à Regeneração. Mas o que passou à História foi a figura da Maria da Fonte, e o hino nela inspirado, ainda hoje tocado em ocasiões solenes, na homenagem a altas entidades.
Mas, ao que parece, a lição ficou-se pelo hino…

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A Maria da Fonte Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Por “Maria da Fonte” ficou conhecido um movimento revolucionário, ocorrido em 1846, em que se distinguiu uma tal Maria (pelo menos assim ficou conhecida), natural ou residente em Fonte Arcada, localidade do concelho de Póvoa de Lanhoso, no Minho.
Não vamos fazer revisão da História, mas fique apenas recordado que foi um movimento de pendor populista, tendo como pretexto não só os novos impostos, mas a obrigação de enterrar os mortos em cemitérios fora das povoações – medida mais que acertada, mas que descontentou os povos, sempre apegados às suas tradições. Quem não se lembra da descrição de Júlio Dinis, na “Morgadinha dos Canaviais”, do motim dos aldeãos no cemitério da aldeia?

O curioso, nesse movimento, e no que se seguiu (a também célebre Patuleia), foi a aliança espúria entre miguelistas e setembristas, ou seja, entre a estrema esquerda e a extrema direita da época. Foi preciso chegar ao PREC e anti-PREC para ver algo de semelhante…
No fundo, a questão era saber se os portugueses queriam, ou no mínimo aceitavam, ser governados por um sistema liberal, modelo parlamentar, tipo europeu. Só a partir de 1851, com a Regeneração, isso se tornou possível.
Mas deixemo-nos de História, e passemos às estórias. O que mais irritava os povos era que António Bernardo da Costa Cabral, vindo de Fornos de Algodres vestido com um casaco ornado com uma pele de chibo, sem meios de fortuna conhecidos, foi depois elevado a Ministro do Reino e veio a gozar do favor da rainha D. Maria II. Mercê disso e de outras peripécias, foi promovido a conde de Tomar, passou a morar num palacete na Calçada da Estrela, onde oferecia festas para mais de mil convidados, e arrematou em hasta pública a cerca do Convento de Tomar; mais tarde, reconduzido no ministério, passeava-se por Lisboa numa luxuosa caleche, oferta de um tal “Frescata” a troco de uma comenda, e, finalmente, conseguiu o arrendamento por 99 anos da Quinta do Alfeite, propriedade da coroa desde D. Manuel I e até aí reservado à família real…

O que a revolução da Maria da Fonte não conseguiu em 1846 (o afastamento de Costa Cabral), conseguiu em 1851 o movimento militar que levaria à Regeneração. Mas o que passou à História foi a figura da Maria da Fonte, e o hino nela inspirado, ainda hoje tocado em ocasiões solenes, na homenagem a altas entidades.
Mas, ao que parece, a lição ficou-se pelo hino…
Passado mais de século e meio, o que mudou neste País, em termos de corrupção?
Não muito. Tal como Costa Cabral contava com o apoio de muitos indefetíveis (os eternos conformados com a máxima do “roubo, mas faço”), ainda hoje há quem continue a apoiar e votar em criaturas apanhadas “com a mão na massa”, se me permitem a expressão. Não sendo, na sua maioria, beneficiários diretos das roubalheiras, o que leva essa gente a prescindir daquela exigência mínima que deve pautar a vida democrática: já que posso escolher, escolho os melhores, ou pelo menos, os mais sérios?

A resposta mais simples é a fatalidade histórica. Costa Cabral há 150 anos, ou um político de hoje, são venais pelo nosso destino imutável; os desígnios da Providência assim o quiseram, e votar neste ou naquele tanto faz, em termos de seriedade. Estaria essa maldição no nosso ADN, a par de outras características, como o fado ou a saudade.
Outra resposta estaria no alheamento dos portugueses da Res Publica, da coisa pública; embora disponham de todos os meios legais para inverter esta situação (e o voto é apenas um deles), as pessoas acomodam-se, relegando as suas competências para terceiros, que assim têm campo livre para todos os abusos. E nem só na Política: o que fizeram os acionistas dos bancos para evitar serem espoliados? Ou as massas associativas dos clubes para não serem manipuladas e utilizadas?
O problema está em que, a par do esbanjamento de recursos, o sistema atual diminui a credibilidade interna e externa do País, e não há operação de charme nos mercados financeiros que ultrapasse a falta de confiança decorrente da sucessão de escândalos.

A menos que se opte precisamente por atrair gente da mesma laia, tornando Portugal naquilo que tanto se tem lutado para extinguir por todo o Mundo: um paraíso para dinheiros de origem duvidosa.
A corrupção é o primeiro Mal deste País; bem pode dizer-se que todos os outros males derivam desse.
O tratamento não é fácil, é doloroso e toca-nos a todos. Mas é uma questão de sobrevivência, e assim deve ser entendido.
E, para mentalização, nada melhor que uma visita à estátua da Maria da Fonte do Jardim de Campo de Ourique (não longe do palacete de Costa Cabral!), ou mesmo na Póvoa de Lanhoso, sua terra de origem. Lá está ela, com a pistola na mão, conforme e hino…

Nuno Santa Clara

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