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Quotidianos

PenafielPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Os deputados madeirenses rebelaram-se e votaram contra o Orçamento de Estado. Elevaram-se clamores, foram pedidas punições, só faltou pedir a cabeça de um Vice-Presidente da Assembleia da República num prato.

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Penafiel Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Eça de Queirós continua a ser de uma atualidade notável. As suas diatribes contra o nacional bacoquismo podiam ser transcritas para os dias de hoje, mudando apenas os nomes e as datas.
Eça foi um homem do Mundo. Cônsul em Havana (ainda espanhola), em Inglaterra e em Paris (a sua terra de eleição), a vivência nessas terras deu-lhe aquele distanciamento que tanta falta faz àqueles que, no Terreiro do Paço, julgam ter influência em Badajoz.
Esse distanciamento (dépaysement, chamou-lhe André Gide) tem os seus perigos. Corre-se o risco de perder as raízes; mas ganha-se na perspetiva alargada da globalidade (não confundir com globalização!), aquela globalidade que tem a máxima expressão em Fernão Mendes Pinto, capaz de reconhecer as vantagens do sistema mandarinesco face à resiliência feudal no seu país de origem.
Eça apreciava o sistema inglês. O espírito da Magna Carta, com os seus séculos de vivência, sobrepunha-se, e sobrepõe-se, à fúria legislativa dos que tudo querem regulamentar - quando basta compreender o espírito das leis para daí inferir um código de conduta.
E Penafiel?
Uma das figuras criadas pelo genial Eça foi a do Conde de Abranhos – Alípio, filho de um alfaiate, singra na vida até chegar aos mais altos cargos. Renega (naturalmente!) a sua família e origens No início da carreira politica, é eleito por Penafiel, que não conhece, mas garante aos seus eleitores que “um dia irei a Penafiel…”.
Liberto, por nomeação para mais altos cargos, do cordão umbilical a Penafiel, desabafa para os amigos: libertei-me daquela “horda de carrapatos”. A “horda” eram os seus eleitores, que reclamavam a estrada, o fontenário, a escola, o emprego.
E assim continuamos. Os novos Alípios, tal como o seu já secular antecessor, continuam a sacudir a “horda de carrapatos” dos eleitores incómodos, que neles votaram à espera da estrada, do fontenário, da escola, do emprego – ou apenas um pouco de progresso para as suas terras.
Ora, Eça conhecia a tal Europa, a do Reino Unido e sua Magna Carta, como a França da III República, e sabia que, nessas paragens, os eleitos respondiam perante quem os elegeu, e não perante o chefe do Partido.
Daí a feroz crítica social e política que representa “O Conde de Abranhos”: pela perversão do sistema democrático que constitui uma organização partidária centrada no carreirismo.
E mais uma vez estamos perante a velha questão: o que mudou, verdadeiramente, em Portugal, nos últimos dois séculos?
Diz a sabedoria popular que o consumo de queijo faz perder a memória. É verdade: quem se lembra do episódio daquele deputado que, para defender a sua terra, votou com um Governo adversário, garantindo assim a continuadade do queijo limiano (passe a publicidade gratuita)? Talvez por via do queijo, o episódio parece esquecido – mas é um caso exemplar.
Agora, os deputados madeirenses rebelaram-se e votaram contra o Orçamento de Estado. Elevaram-se clamores, foram pedidas punições, só faltou pedir a cabeça de um Vice-Presidente da Assembleia da República num prato.
E porquê? Porque aqueles eleitos se consideraram responsáveis perante quem de boa fé os elegeu.
Será que o País está a mudar?
Decompondo Penafiel, é pena se assim não for, e só o fiel continue a fazer carreira…

Nuno Santa Clara

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