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A DECADÊNCIA DO BARREIRO E A VERTIGEM DOS GRANDES PROJECTOSPor André Carapinha

É esta permanente incapacidade presente na actuação dos poderes públicos e na visão das nossas pobre elites que permite entender porque todas as putativas soluções que aparecem para os problemas da cidade são sempre “mega-projectos”, soluções “de fora para dentro” - foram a terceira travessia do Tejo ou o plano de urbanização para a Quimiparque, é agora o Terminal de Contentores.

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A DECADÊNCIA DO BARREIRO E A VERTIGEM DOS GRANDES PROJECTOS Por André Carapinha

Por Jornal Rostos

Será o Barreiro uma cidade em decadência?
São vários os factores que nos fazem identificar a decadência de uma cidade. Alguns são quantificáveis, como a perda da sua população, a descida dos valores cobrados em taxas municipais, o número de falências ou encerramento de actividades económicas, em contraste com as que são criadas, ou o aumento da taxa de criminalidade. Outros são empiricamente observáveis: a vida cultural, o esvaziamento das ruas, a sensação de insegurança ou a degradação do tecido urbano. Parece-me inegável que o Barreiro se encontra em decadência.

Isto que tão óbvio me parece, é afinal uma questão problemática quando se fala do Barreiro, e para o Barreiro. Quais dos agentes políticos, das entidades públicas, das “forças vivas” da cidade, tem ou teve coragem de reconhecer perante os seus concidadãos que o Barreiro é uma cidade em decadência?

Nada do que falamos teria grande importância, não fosse o caso de que reconhecer a decadência é, obviamente, a única forma de começar a contrariar essa decadência. Mas não é isso, infelizmente, a que assistimos no Barreiro; este hábito de dourar a pílula da realidade, de estar sempre a valorizar o que de bom se faz (pois a verdade é que não falamos de uma cidade qualquer, mas do Barreiro!), tem servido essencialmente para que todos nós, os seus cidadãos, e em especial os seus representantes, se demitam de reflectir sobre o que tantas e tantas vezes se nos apresenta, também, evidente: que o Barreiro é, inegavelmente, uma cidade em decadência.

Esse discurso que tão bem conhecemos, o exagero com que se trata daquilo que alguns (e com tantas dificuldades!) ainda vão fazendo, e a desvalorização de tantos e tantos problemas que são estruturais e não conjunturais, tem servido interesses políticos que sobrevivem do status quo. Mas é também, é preciso dizê-lo, resultado de uma incapacidade de pensar a cidade que é transversal às elites barreirenses. Não se trata do partido x ou y, do executivo municipal a ou b; não se encontra em qualquer programa político, em qualquer fórum de discussão e reflexão (isto partindo do princípio de que existiriam tais fóruns), uma análise séria e lúcida sobre o estado em que esta cidade se encontra, os problemas que ela enfrenta, ou as soluções para eles. E quando se encontra alguma coisa, é de forma tão incipiente que se tornaria risível, não fosse esse o sintoma maior de um problema que nos afecta a todos enquanto comunidade de forma tão cruel.

É esta permanente incapacidade presente na actuação dos poderes públicos e na visão das nossas pobre elites que permite entender porque todas as putativas soluções que aparecem para os problemas da cidade são sempre “mega-projectos”, soluções “de fora para dentro” - foram a terceira travessia do Tejo ou o plano de urbanização para a Quimiparque, é agora o Terminal de Contentores. Perante a evidência de que o Barreiro não está bem, que é preciso fazer alguma coisa, mas a incapacidade em reconhecer a gravidade da sua situação, aceita-se acriticamente qualquer “investimento” que, crê-se, irá “criar emprego” e ser o santo graal que mudará o destino da cidade. Pior: ao colocar as soluções em mãos exteriores, em planos que não dependem da energia que a cidade ainda possui, descuram-se as questões verdadeiramente estruturais.

No meus próximos artigos aprofundarei estes problemas, com enfoque na distinção entre os conceitos de renovação e reabilitação urbana, uma questão que em urbanismo tem mais de 50 anos mas que, desconfio, a maior parte dos agentes públicos no Barreiro desconhece (ou pelo menos aparenta desconhecer, já que a realidade assim mo demonstra), e no projecto do Terminal de Contentores, a nova vertigem em que estes se preparam para lançar a cidade, sem qualquer análise credível sobre os seus custos, benefícios e consequências.

André Carapinha

P.S: Inicio com este artigo uma colaboração regular com o jornal “Rostos”. Faço-o porque a minha análise política tem vindo a evoluir no sentido de considerar a importância das questões locais como essenciais numa construção global de alternativas sociais, económicas e culturais. Agradeço a este jornal o espaço que me concede.

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