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Quotidianos

A SYRIZA no boloPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Como nas telenovelas, gostaria de apresentar cenas dos próximos capítulos. Mas, como para isso seria necessário ser bruxo, tal coisa está para além das minhas capacidades. Mas dispomos, felizmente, de outras formas de previsão. Se, conforme a lei geral do determinismo (base de toda a ciência experimental) as mesmas causas, nas mesmas circunstâncias, produzem os mesmos efeitos, então a margem de incerteza reduz-se até ao razoável.

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A SYRIZA no bolo Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Desafiar uma doutrina dominante (nem é preciso ser a ordem social estabelecida) é sempre gratificante. Não é a contestação a motivação do avanço do conhecimento, o motor do progresso da Humanidade?
Não a contestação por si mesma, do género arte pela arte, que muitas vezes se revela inócua e que acaba por ser absorvida pela sociedade que diz contestar – precisamente por ser inócua.
Assim sucede com aqueles movimentos estéticos que, passado um momento de turbação (o tempo de épater le bourgeois), passam a estar na moda, e até se tornam um excelente negócio. O marginal torna-se moda, e corre mesmo o risco de se tornar estética oficiosa, quando não oficial.
No campo político, enfrentam-se com frequência os donos da verdade, na forma de uma receita tida por infalível e sem contestação, com os defensores de alternativas. Nada mais natural na defesa da “verdade”: qualquer organização contém em si o germe do imobilismo, uma vez que uma solução alternativa parece sempre uma ameaça à ordem estabelecida. Dos exércitos às empresas, e não esquecendo os regimes políticos, esta tendência é universal. E disso vivem os tais donos da “verdade”, invocando o espectro do caos e da anarquia, única alternativa que admitem para caminhos que não sejam os seus.
O problema normalmente clarifica-se quando se vai ao âmago da questão. Nem se põe em causa revolucionar todo o Mundo, mas apenas contestar algumas “verdades” que, de tanto repetidas, parecem ser mesmo verdades.
Assistimos na Islândia, e agora na Grécia, a fenómenos deste tipo. Não houve tiros, nem guilhotinas, nem massacres. Apenas uma contestação organizada, ordeira, uma determinação fria, que parece ter abalado algumas “verdades” absolutas.
No caso da Islândia, a sua dimensão, isolamento e afastamento do centro da Europa facilitou a tarefa de escamotear os factos. Já não na Grécia, quer pela proximidade, quer pela maior visibilidade: está há meses na primeira linha dos meios de comunicação social.
Mas a procissão ainda vai no adro. O novo governo ainda agora tomou posse, e as declarações públicas, do governo grego e de outros governos e organizações, têm-se pautado pela contenção e pela prudência, ao arrepia do período da campanha eleitoral, o que constitui uma primeira demonstração de que afinal, sempre existiam alternativas. Excetuam-se as declarações do nosso Primeiro-Ministro, que brilharam pela consonância com a ordem estabelecida, ou melhor, imposta. É humano: ninguém gosta de dizer que estava, ainda que hipoteticamente, errado. E a humildade não tem sido a virtude mais visível nos nossos governantes., este ou outros. Trata-se de um fenómeno transversal, sendo difícil discernir, entre as várias forças políticas, quem está menos culpado, ou mesmo isento, do pecado capital da falta de humildade.
Ora, ainda a procissão estava dentro da igreja (antes de sair para o adro) e logo se verificaram indícios de mudança. Ninguém vai crer que a decisão do BCE, no sentido de apoiar a economia dos países membros a partir de garantias que, ainda há pouco, seriam consideradas inviáveis e puras heresias, não tem relação com as eleições gregas.
É que a parada é muito alta. Ninguém ganharia com a saída da Grécia da zona do Euro, e, sendo assim, nada melhor que um gesto de boa vontade para conter algum excesso de contestação que levasse a posições extremas, quer dos exaltados aguilhoados pela fome, quer dos dogmáticos manietados por uma doutrina que, afinal, não vingou em parte alguma.
De um e de outro lado da barricada, o tom foi semelhante, passando-se do “não” para o “talvez”.
Ora, conforme a velha anedota, quando um político diz “não”, quer dizer “talvez”; quando diz “talvez”, quer dizer “ não”; se diz “não”… não é um político. Estaremos a ver o inverso desta anedota? Ou apenas uma variação ocasional?
A ser assim, iríamos assistir a uma operação cosmética, coisa a que nós portugueses, estamos há muito habituados. Não se substituiu a PIDE pela DGS, e a UN pela ANP? No fundo, é a velha questão posta pela pena talentosa de Tomaso de Lampedusa: é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma.
Mas não muda tão pouco assim. Substituir a Troika por elementos da Comissão ou do Parlamento Europeu é inverter o caminho até agora percorrido, ou seja, pôr a Economia ao serviço do Homem, e não ao contrário, que é o que se tem visto. Ou seja, dar força a um conjunto de vozes que, desde há vários anos, têm andado a pregar aparentemente no deserto.
Só que o deserto, agora, parece animar-se. E os até agora eram considerados camelos passarão a iluminados; e, consequentemente, os iluminados passarão a camelos…
A esse coro juntou-se agora Barack Obama, de além Atlântico: não é possível assentar uma recuperação económica numa austeridade estranguladora. E disso sabem os americanos, que não esqueceram os tempos da Grande Depressão: se não fosse o New Deal do Presidente Roosevelt, os Estados Unidos teriam continuado no marasmo por muito mais tempo, com os custos sociais que isso teria implicado. Foi então cometida uma heresia, aos olhos dos conservadores do Partido Republicano – uma heresia que salvou a América.
Não esqueçamos também que o plano Marshall, que fez ressurgir a Europa após a II Guerra Mundial, constitui, à luz das teorias neoliberais, uma perfeita heresia…
Voltemos ao presente. As movimentações dos governantes gregos e as reações dos vários governos e instâncias internacionais vão-nos dando uma boa amostra de quão falíveis são as previsões e declarações solenes de há cerca de um mês.
É certo que qualquer movimento de aproximação tem dois sentidos. E que, no gesticular das relações internacionais, alguns pequenos gestos têm significado transcendente. A oferta de uma gravata (de boa qualidade italiana, suponho) de Matteo Renzi, Primeiro-Ministro da Itália, a Alexis Tsipras, Primeiro-Ministro da Grécia, constitui um bom exemplo: toma lá uma gravata, e vê se te juntas a nós…
Como nas telenovelas, gostaria de apresentar cenas dos próximos capítulos. Mas, como para isso seria necessário ser bruxo, tal coisa está para além das minhas capacidades. Mas dispomos, felizmente, de outras formas de previsão. Se, conforme a lei geral do determinismo (base de toda a ciência experimental) as mesmas causas, nas mesmas circunstâncias, produzem os mesmos efeitos, então a margem de incerteza reduz-se até ao razoável.
E o razoável é que se dará uma aproximação das posições. Só um poeta, dentro da sua liberdade institucional, ousaria pôr em causa todo o sistema. Como escreveu José Régio, no seu poema “Cântico Negro”, partindo de “tenho a minha loucura”, termina com dois versos magistrais:
“Não sei para aonde vou,
Sei que não vou por aí!”
Por onde iremos? Decerto por um caminho que tolherá os extremismos, e o extremismo não se resume à Al-Qaeda.
Assim sendo o Syrisa, partido grego que ganhou as eleições e agora remexe com a Europa, fez um bom trabalho, com coragem e determinação. Fez exatamente aquilo que, como disse, faz andar o Mundo: contestar, para avançar.
Se o conseguir, o seu exemplo frutificará nas orientações futuras da política europeia. E, deste modo, poderíamos considerar que, segundo a expressão popular, isso seria a cereja em cima do bolo.
Ou melhor, a SIRIZA no bolo.

Nuno Santa Clara

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