Uma forma de ditaduraPor Nuno Santa Clara
Barreiro
O Terminal de Contentores não será, assim, uma rotura com o passado, mas apenas a continuação de uma fatalidade histórica e geográfica com mais de dois mil anos de existência.

Por Jornal Rostos
Quando se estuda tática nas escolas militares, há um chavão frequentemente empregue: o terreno é ditador. Quer isto dizer que a morfologia do terreno impõe a solução, sendo isso sido tão verdadeiro na batalha de Kadesh (1.298 A.C.), como na batalha das Ardenas (1944). Desculpem esta incursão na minha área profissional, mas, embora algumas pessoas desconheçam isso, a ciência militar aplica-se noutras áreas, com as necessárias adaptações (senão, teríamos o militarismo!). Um bom exemplo disso é a atual organização das empresas, em que o famigerado “line and staff” não é mais que a transposição para as organizações civis do conceito de comando e conselho, velho como a própria guerra…
Voltemos à Terra – neste caso, à nossa terra, ou seja, ao Barreiro.
A localização do Barreiro, com duas frentes fluviais, no topo de uma península projetada sobre o estuário do Tejo, com ligações fáceis a um hinterland produtivo (minerais, cereais, cortiça, madeira, gados, etc.), impuseram-no como local privilegiado para a ligação entre as duas margens do grande rio, ou, como agora se diz, entre os polos Norte e Sul da cidade de duas margens.
Isso mesmo viram os romanos, quando aqui colocaram o início da via que, por Coina (Velha) Alcácer, Évora e Juromenha, conduzia a Mértola, então capital da província da Lusitânia. Ou os construtores do caminho-de-ferro, quando aqui colocaram o terminal da linha que haveria de ligar a capital ao Sul e a Espanha.
Cabe aqui recordar os escritos de José Caro Proença, que não se cansa de recordar, aos barreirenses de hoje e aos decisores deste País, as lições que a História nos dá, e que alguns (infelizmente altamente colocados) querem esquecer.
Tem-se registado ultimamente um fenómeno que seria divertido, se não fosse trágico nas suas consequências. Trata-se de fazer tábua rasa da velha ciência, em nome de soluções tecnicamente evoluídas – só que algumas ainda não comprovadas, e outras tendencialmente malbaratando os tais condicionamentos fixos. Não se tome isto por imobilismo: trata-se apenas de não ignorar séculos de experiência acumulada, e essa é insubstituível; o “saber de experiência feito” ainda tem o seu valor.
Podemos aqui recordar cenas como ver desaparecer, água abaixo, novas pontes de rutilante tecnologia, enquanto as construídas pelos romanos ainda hoje perduram; ou ver desertificar terras que a agricultura adaptada às condições reais tinha preservado e que alguns tecnocratas arruinaram, para compreender o fundo desta questão.
Ora, tudo aparentemente impunha que a ligação ferroviária e rodoviária entre as duas margens se fizesse a partir do local lógico, ou seja, o Barreiro. A localização geográfica, a estrutura ferroviária, o terreno (infelizmente!) agora disponível, tudo parecia ditar a solução. E ditar é o temo próprio, porque de uma ditadura se trata, conforme se referiu no primeiro parágrafo.
Mas eis senão quando se optou pela ponte entre Sacavém e o Montijo, e apenas rodoviária. Ou seja, se optou por uma solução talvez válida para meados do século XX – mas o que aí vinha era o século XXI, com as necessidades de transportes de massa, de carga e passageiros, e mesmo de comboios rápidos…
Já é hábito: deixa-se degradar as gares marítimas, até se descobrir, tarde e más horas, que Lisboa, afinal, era um destino turístico para navios de cruzeiro, entretanto relegados para Alcântara; ou que Lisboa era atravessada por uma linha ferroviária dupla e eletrificada, que permitia um tráfego pendular, enquanto o tráfico se emassava no Rossio ou Santa Apolónia…
Assim vamos vivendo. Por atavismo, por desleixo, por incompetência? Duvido. Dispomos de bons quadros, a quem estes assuntos não passam despercebidos.
Na busca da explicação, vamos alargar os nossos horizontes. E nada melhor que uma história real para lançar uma acha na fogueira.
Um parente meu trabalhou muitos anos na Comunidade Europeia, ligado a planos de desenvolvimento, e contou-me esta “estória”.
Fazia ele uma visita a um novo porto terminal de contentores, no Sul de Inglaterra. Estranhou que se fizesse uma infraestrutura completamente nova, quando abundavam antigos portos na zona; bastaria adaptar um deles. Foi então que lhe deram a justificação daquele empreendimento: é que, ali, não havia sindicato de estivadores; logo, as coisas eram mais fáceis…
Será este exemplo uma indicação para as opções quanto ao Barreiro? Tudo isto são conjeturas, mas eu, tal como os espanhóis, digo: “yo no creo en brujas, pero que las hay, hay”…
Já vimos serem deslocalizadas, pelo sector privado, algumas atividades com tradições e mão-de-obra qualificada, como a indústria corticeira – e sabemos porquê; ou, no sector público, a asfixia das oficinas da CP. Será que se quer seguir o exemplo inglês, e transformar o Barreiro numa espécie de reserva de indígenas?
Se assim é, resta-nos ser salvos pela intervenção externa, velha panaceia nacional, e será isso que, aparentemente, se prepara. Quem decide fora do contexto de questões mesquinhas e fratricidas pauta-se pela lógica, e dentro da lógica estão os imperativos vários, entre os quais os da tal ditadura geográfica.
Esperemos, pois, que as soluções importadas (melhor dizendo, impostas por que tem meios para o fazer) sejam as lógicas, e como tal o Barreiro recuperaria a importância que a geografia lhe impõe.
Disse um dia Napoleão que a Bélgica era o campo de batalha da Europa. Acertou, e até foi ali que perdeu a sua última e fatal batalha (Waterloo). Não o disse por os belgas serem especialmente belicosos: disse porque, para atravessar a Europa, os exércitos tinham de passar por ali, quer os belgas quisessem, quer não. Foi precisamente o que aconteceu nas I e II Guerras Mundiais. Uma forma de ditadura…
Assim, o Barreiro está condenado a ter um papel importante na cidade das duas margens – quer os transitórios poderes públicos queiram, quer não…
O Terminal de Contentores não será, assim, uma rotura com o passado, mas apenas a continuação de uma fatalidade histórica e geográfica com mais de dois mil anos de existência.
A que se seguirá, naturalmente, a construção da tal ponte…
Nuno Santa Clara














