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Quotidianos

O bicho-de-contaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Todos estamos de acordo em que a proliferação dos plásticos constitui uma praga, iniciada no século XX, e que ameaça prolongar-se por este século. Logo, qualquer medida no sentido de contrariar essa praga é bem-vinda – e esta medida insere-se decerto nesta louvável campanha.

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O bicho-de-conta Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

O bicho-de-conta é talvez o brinquedo mais antigo da Humanidade. Não há quem não se tenha divertido, na sua infância, a tocar no pequeno bicho, para vê-lo enrolar-se em bola, aguardando nessa posição que o potencial perigo desapareça. Mais que uma defesa eficaz, é uma boa camuflagem, uma vez que se confunde facilmente com uma pedrinha. Outros recorrem ao mesmo truque, como o ouriço-cacheiro, mas esse tem espinhos que desaconselham brincadeiras.
Mas porquê de conta? Porque, antes da invenção da numeração dita árabe, só se faziam contas através de pedrinhas, enfiadas num arame ou fio (o chamado ábaco). E assim o bicho recebeu essa alcunha. Como a palavra latina para pequena pedra – cálculo – passou a ter outro significado.
Mas, para além do bichinho de conta, há o bichinho das contas: aquela tendência para quantificar as coisas, e mesmo expressá-las por números.
Aí está a raiz da ciência, dirão uns; tempo perdido, dirão outros. Pois, para mim, há sempre vantagem em medir as coisas, e mesmo tentar quantificar as atitudes, ou pelo menos os efeitos delas.
O Governo entendeu que os sacos de plástico passassem a ser de venda obrigatória. Nada de anormal: alguns supermercados já os cobravam, enquanto outros os davam de borla, como forma de benesse para os seus clientes.
Todos estamos de acordo em que a proliferação dos plásticos constitui uma praga, iniciada no século XX, e que ameaça prolongar-se por este século. Logo, qualquer medida no sentido de contrariar essa praga é bem-vinda – e esta medida insere-se decerto nesta louvável campanha.
Mas existe outro lado desta disposição. Se os sacos de plástico são oferecidos, o seu custo dilui-se nos encargos gerais do supermercado; se são vendidos, estão naturalmente sujeitos os regime geral de IVA, ou seja, são taxados a 23% do seu valor (o que já sucede, como se disse nalguns casos).
Também ficou estabelecida a tabela de preços: dez cêntimos, IVA incluído. Assim sendo, o Estado cobrará 2,3 cêntimos por cada saco vendido.
E aqui ataca o bichinho das contas. Em estimativa grosseira, se cada português consumir apenas dois sacos por semana, dá 104 sacos por ano; havendo dez milhões de portugueses, isso representa 1.040 milhões de sacos; a 2,3 cêntimos, dá 23,92 milhões de euros.
Outras estimativas haverá, mas temos de ter em atenção que, sendo os sacos pagos, o consumo naturalmente diminui; só o futuro dirá qual o comportamento dos portugueses.
Claro que não será por aqui que se equilibram as contas públicas.
Mas, se esta medida foi tomada para defesa do ambiente, seria de bom-tom que esta nova receita revertesse para o Ministério do Ambiente, com destino a apoiar programas concretos que melhorem a nossa vida à face da Terra.
Se assim não for, lá se foram as contas. E não teremos outro remédio que não seja enrolarmo-nos bem enroladinhos, como o bicho-de-conta, como tem sido o nosso estatuto: enrolar e aguentar.
Pois não somos apenas pequeninas contas no gigantesco ábaco das Finanças?

Nuno Santa Clara

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