Os HôtrosPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Talvez o leitor nunca tenha ouvido falar dos Hôtros. O que é estranho, dado que será talvez o grupo social mais abundante da Humanidade, à face desta Terra.
Os Hôtros não correspondem a uma definição étnica definida; felizmente que assim é, pois ficam de imediato afastadas todas as hipóteses de reivindicação da formação de um Lar Nacional, fundamentado em raízes históricas, ou de qualquer outra reivindicação territorial, fonte de intermináveis conflitos. Essas guerras de libertação, que marcaram os dois últimos séculos, não estão nos horizontes de afirmação dos Hôtros.
Curiosamente, uma das características dos Hôtros é a sua falta de solidariedade e de consciência de classe ou grupo social. Essa fraqueza tem remetido os Hôtros a uma quase invisibilidade, apesar de terem um peso demográfico esmagador.
Como é isto possível?
A fraca ou nula capacidade dos Hôtros assenta numa demissão coletiva, pela via da delegação de poderes que fazem noutra categoria de gente. Não é fundamental que essa delegação se tenha processado de forma democrática ou violenta; o resultado final é o mesmo, ou seja, os Hôtros perdem, muitas vezes voluntariamente, a sua capacidade em gerir o próprio destino.
Ora, aqueles que, legal ou ilegalmente, se apropriam dos direitos do Hôtros não deixam de exercer as suas prerrogativas – basicamente, é essa a diferença entre eles e os Hôtros. Mas o estranho é que isso não transparece no conjunto do edifício legislativo que elaboram, e a que qualquer governação obriga. Escusado será a qualquer grande investigador ou teórico de Direito, constitucional, criminal ou civil, procurar nas constituições, leis, decretos e mais ordenações da Res Publica algum indício da discriminação. A Lei é igual para todos.
Então, como detetar a tal diferença entre uns e outros (ou, mais propriamente, entre Uns e Hôtros)?
A Bíblia, entre o Velho e o Novo Testamento, dá-nos muitos exemplos e orientações, mesmo para os mais incrédulos. Segundo S. Lucas, Jesus Cristo teria feito alusão à forma de distinguir a boa da má árvore: pelos frutos as conhecereis. Transposta a parábola para o comportamento humano, é pelos resultados que se devem medir as mais pomposas a badaladas intenções, e não pelo impacto mediático das grandes declarações.
E os frutos, aqui, são os factos, essas realidades que teimam em denegrir as mais eloquentes declarações.
Os factos têm, ultimamente, tomado um peso avassalador. Os Hôtros, por norma, tendem a não ligar ao se passa mesmo diante do seu nariz, até que, por casualidade, tudo passa para a primeira página da imprensa ou para o jornal televisivo do chamado horário nobre. A propósito: por definição de nobre, deveria ser aquele onde passam as coisas nobres, mas, infelizmente, nem sempre assim acontece.
Basta lembrar os vários leaks vindos a público, documentos do Pentágono, de bancos suíços, de escândalos de corrupção, para constatar que nada disso era novidade, e que até vinha aparecendo a conta-gotas na comunicação social; mas faltava o fator mediático.
E é aqui de surge, ainda que de forma discreta, o modo de os Hôtros terem conhecimento do seu estatuto de menoridade.
Quando confrontados com o facto, os minoritários têm defesas que, curiosamente, têm um padrão uniforme, decerto pela boa razão que, em regra, funciona, mesmo que indefinidamente repetido.
Na base da sua lógica, está que não se deve confundir Uns com os Hôtros. Como magistralmente escreveu George Orwell no seu livro Animal Farm (título português: O Triunfo dos Porcos), os ditos porcos ficavam com todas a maçãs, não porque gostassem de maçãs – longe disso! – mas porque as maçãs eram boas para o cérebro, e eles precisavam de pensar bem…
Assim, quando se produzem as leis, é para serem cumpridas pelo Hôtros – ou não serão eles a esmagadora maioria da população? E discriminação, como se disse, não há.
Mas, quando algo de erado acontece, as explicações são algo confusas.
Primeiro porque, segundo um universal princípio do Direito, a ninguém pode aproveitar o desconhecimento da Lei. Lógico: imaginemos um ladrão a invocar que não sabia que era proibido roubar, um condutor a argumentar que desconhecia os sinais de trânsito, ou um corrupto a declarar ignorar o que é um suborno.
Nesses casos, por vezes sucede que o prevaricador tem mais obrigações: por exemplo, um agente da autoridade que alega desconhecer a lei é algo difícil de engolir.
Mas, se para os Hôtros as coisas são simples, noutros casos nem tanto.
Temos assistido a fenómenos curiosos, quando a pessoas que não pertencem aos Hôtros é aplicada a lei geral. Então lá vêm os protestos contra as obrigações fiscais, contra o sistema judicial, contra o regime prisional, contra o segredo de justiça, contra a violação do segredo de justiça (conforme os casos), contra as contribuições sociais, enfim, contra tudo o que, de facto, está aprovado, publicado, em pleno vigor, de forma legítima e legal.
E o curioso é que essas contestadas normas foram propostas, debatidas, aprovadas, referendadas, publicadas, por aqueles que, quando lhes é aplicada, as renegam, contestam, ou declaram ignorá-las.
Não há aqui nada de estranho: sendo as leis destinadas a ser cumpridas pelos Hôtros, é natural que alguns fiquem acima das leis – e quem melhor do quem as fez?
Outras defesas podem ser utilizadas. A mais corrente é a da cabala, através da qual o presumido prevaricador alega ser vítima de perseguição.
Também usada é a amnésia, motivo pela qual pecado esquecido é pecado perdoado.
Ainda se pode recorrer à Matemática e à Contabilidade, pelas quais o Deve e o Haver se confundem, deixando os leigos na crença que Judas, afinal, era um bom gestor.
Curiosamente, há um argumento muito pouco invocado, e que, aparentemente, devia ser mais utilizado. Trata-se daquele criado pelo grande Jô Soares: mas só eu? Cadê os outros?
Aqui reside o fundo da questão. Não podem confundir-se os Outros com os Hôtros. Porque os Outros são da mesma linhagem, e não devem ser metidos em trabalhos; isso seria uma quebra de solidariedade e podia ser mesmo a derrocada do sistema.
E assim, nós, os Hôtros, nunca podemos aspirar, nem à Grande Benevolência, nem à solidariedade que gozam os Outros.
Nuno Santa Clara














