Obrigado, menina Lurdes!Por Rosalina Carmona
Barreiro
Se eu pudesse, atribuía à menina Lurdes um galardão. O galardão pela sua amizade e em reconhecimento pela dignidade com que viveu.
Por Jornal Rostos
Na hora do almoço fui ao encontro da menina Lurdes, pela última vez. Era no intervalo do almoço, no restaurante da Dona Maria que às vezes, trocávamos breves palavras, ou sorrisos. Eu com o tempo contado, ela com a sua dignidade sem limites, desfiava histórias e memórias do Barreiro. Assim ouvi algumas, na primeira pessoa e com pormenores, que só quem as viveu intensamente pode repetir.
Desta vez já não houve sorrisos e só eu me encontrei com ela. Deixei-lhe umas flores simples, não tão bonitas ou garridas como as sardinheiras que alegram a sua varanda, na Rua Vasco da Gama.
A menina Lurdes, assim lhe chamavam os que a estimam e conheceram de perto, deixou-nos. Partiu para os lugares da memória, esses lugares do vazio, insondáveis que habitam em cada um de nós.
Se eu pudesse, atribuía à menina Lurdes um galardão. O galardão pela sua amizade e em reconhecimento pela dignidade com que viveu.
Adeus, menina Lurdes, obrigado!
Em sua homenagem, volto a reproduzir um texto aqui publicado em 1.8.2014, no qual, então, não identifiquei o seu nome.
Na hora fugaz do almoço, por vezes, aquela senhora a quem chamam “menina”, desfia memórias e histórias. Histórias de pessoas que se sentam ao nosso lado, histórias clandestinas, como tinham de ser as histórias da resistência à ditadura, com homens e mulheres que não se sentem heróis, mas foram capazes das maiores audácias. Em nome da liberdade.
A “menina”, que dedicou toda a sua vida à profissão e ainda hoje é reconhecida e estimada por várias gerações de barreirenses, fala com naturalidade de como a sua casa se tornou uma “casa de apoio do Partido”, acolhendo e escondendo da polícia política muitos militantes clandestinos. Alguns nunca chegou a vê-los, ou sequer a saber quem eram. Por vezes apanhou grandes sustos, quando à noite, os cães em alvoroço nos quintais da vizinhança alertavam para presenças estranhas. A sua casa acabaria por se tornar conhecida da polícia e a senhora, a quem chamam “menina”, teve de deixar a sua varanda florida e o Barreiro que tanto amava. Como alguns barreirenses e tantos outros portugueses, foi forçada a partir para França, de onde só voltou depois da Revolução.
Hoje falou da preparação da acção de protesto, que teve lugar no dia da inauguração do monumento a Alfredo da Silva. Em 30 de Junho de 1965, o regime deslocara-se em peso ao Barreiro, para homenagear Alfredo da Silva, com a inauguração da sua estátua. No acto estiveram presentes o Chefe do Estado Américo Tomás, os presidentes da Assembleia Nacional e Câmara Corporativa, quinze ministros e secretários de estado, chefias militares e toda a descendência do dono da CUF.
A senhora, a quem chamam “menina”, diz que os preparativos começaram dias antes, quando duas companheiras levaram para sua casa, um grande embrulho muito enfeitado com laços, para não levantar suspeitas. Era a máquina de stencil, para reprodução de documentos. Os panfletos começaram logo a ser impressos, mas demorou alguns dias, já que a tinta não secava facilmente e tinham de ficar espalhados por toda a casa. Nessas alturas ninguém podia lá entrar e ela tinha de ter cuidados redobrados pois, mesmo no andar de baixo vivia um conhecido bufo da PIDE. Quando ficaram prontos, ela não adivinhava qual o destino dos panfletos, só o soube depois.
No dia 30, quando Américo Tomás acompanhado pelo director geral da PIDE/DGS, o major Fernando da Silva Pais e restante comitiva do governo salazarista desfilavam pela Avenida, um petardo rebentou perante a estupefacção geral, lançando centenas de panfletos com dizeres contra o fascismo, contra a guerra colonial, pela liberdade, pela democracia.
Ninguém se aleijou e a acção foi tão espectacular que surpreendeu todos, sobretudo as forças policiais. Ainda hoje, a senhora a quem chamam “menina”, não sabe como, nem quem lançou o petardo.
Histórias destas, de homens e mulheres anti-fascistas que não se furtaram à luta e à acção, são muito comuns no Barreiro. Podemos ouvi-las à esquina, ou na mesa do café. O Barreiro da resistência não é um mito, ele foi uma dura realidade.
Esta senhora, a quem alguns afectuosamente chamam “menina”, conclui «isto [a liberdade, a democracia] não caiu do céu, foi preciso lutar muito.»
Rosalina Carmona
https://www.rostos.pt/quotidianos/11000109-historias-e-memorias-da-resistencia-no-barreiro-por














